A ORGANIZAÇÃO DAS SANTAS CASAS DE MISERICORDIA

santa casa

Publicado em maio de 2016 na revista Hospitais Brasil

A história das Santas Casas sempre me fascinou, principalmente pela arquitetura antiga de algumas delas. Em algumas décadas de atividade que tenho exercido, tive oportunidade de frequentar diversas unidades da Santa Casa pelas cidades do Brasil. Nas minhas indas e vindas entre as paredes grossas seculares, corredores ladeados de colunas e estruturas portentosas, corria os prédios antigos com a cabeça nos desafios profissionais e os olhos na história aparente nos tijolos de cada ala que eu entrava.

Apesar da minha admiração, sempre tive também desconhecimento de particularidades quanto a administração e sustento das Irmandades, como muitos outros com os quais conversei a respeito. Confesso, ignorante que fui, que sempre pensei que as Irmandades estivessem de alguma forma ligada a Igreja católica em sua origem e financiamento. Depois de algumas gafes percebi que precisava pesquisar e me informar mais a respeito, e como toda jornada de conhecimento leva a descobertas incríveis, também tive as minhas sobre a História das Santas Casas no Brasil, e decidi dividir as poucas informações que consegui com os leitores deste meu blog.

As primeiras informações chamam a atenção, as Santas Casas somam mais de 2.100 hospitais, espalhados em todo o território nacional, responsáveis por quase cerca de 50% do número de leitos hospitalares existentes no país. São instituições particulares, laicas e filantrópicas, que em muitos municípios brasileiros garantem o serviço de saúde da população através de seus hospitais. Quando criada em Portugal foi a primeira legítima ONG do mundo, em um tempo em que seria impensável a existência de uma instituição social que se declarasse leiga e não governamental. Da época de sua fundação em Portugal até a metade do século XVIII, a Santa Casa foi dirigida por pessoas situadas nos altos escalões do governo e cresceu com ajuda de doações e pelo prestígio que a Santa Casa ganhava com o desenvolvimento econômico da colônia. Era uma instituição fechada, pois só faziam parte os representantes da elite local ou aqueles que tinham alcançado uma posição privilegiada na sociedade colonial

No Brasil o título de primeiro Hospital da Santa Casa divide a opinião de alguns historiadores entre São Paulo e Olinda, e eu decidi acompanhar os relatos do historiador Francisco Pereira da Costa reconhecendo na cidade de Olinda a primeira Irmandade da Santa Casa, construída em 1539 e seguida pela Santa Casa de Santos em 1543 ainda com o nome de Hospital de Todos os Santos, nome que depois deu origem a vila e a Cidade de Santos.

As dez primeiras instituições que foram criadas no Brasil são:

1539 – Santa Casa de Misericórdia de Olinda (PE)

1543 – Santa Casa da Misericórdia de Santos (SP)

1549 – Santa Casa de Misericórdia de Salvador (BA)

1582 – Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (RJ)

1551 – Santa Casa de Misericórdia de Vitória (ES)

1599 – Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (SP)

1602 – Santa Casa de Misericórdia de João Pessoa (PB)

1619 – Santa Casa de Misericórdia de Belém (PA)

1657 – Santa Casa de Misericórdia de São Luís (MA)

1792 – Santa Casa de Misericórdia de Campos (RJ)

 

Quando criadas no Brasil tinham como objetivo atender à população carente, cuidando dos enfermos em seus hospitais, alimentando os famintos, sepultando os mortos, educando os enjeitados em seus orfanatos e acolhendo os recém-nascidos abandonados na Roda dos Expostos. A fonte de renda vinha inicialmente das doações e esmolas. A partir do século XIX essas entraram em decadência e outras surgiram: festas filantrópicas, recursos de loterias, convênios e subvenções estatais. Ao mesmo tempo, as ações voltadas para a assistência médica foram crescendo em detrimento das demais atividades, ou seja, durante o Império, as Santas Casas acompanharam algumas mudanças da sociedade e o foco passou a ser o cuidado com os enfermos e amparo à infância desvalida. Foi uma resposta ao cenário epidemiológico criado pelas epidemias do século XIX, que resultou no aumento de órfãos, mendigos e doentes.

Infelizmente em julho de 2014 o fechamento do pronto socorro da Santa Casa de São Paulo revelou a situação dramática que esta e outras instituições de caridade enfrentam atualmente por conta de desmandos políticos, ingerência financeira, corrupção. Uma imagem do cenário caótico da administração da saúde brasileira. A história continua sendo escrita, mas desta vez sem a beleza arquitetônica ou o ideal da caridade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *