APRENDENDO COM O ARQUEIRO

arco2A META 

O arqueiro tem apenas um objetivo, acertar no alvo, e apesar de existir uma pontuação progressiva, o arqueiro olha somente para o centro do alvo, essa é sua meta. O alvo de competição é composto por 10 círculos concêntricos de cores diferentes cujas pontuações vão de 1 a 10 sendo o círculo de valor 1 o que está mais distante do centro e o de valor 10 o que está exatamente no centro, a mosca. Esta meta central de valor 10 mede 8cm de diâmetro para arcos recurvos para uma distância de até 50 metros e sua cor é amarela, ou seja, para o arqueiro sua meta é muito bem definida, tem tamanho cor e valor, isso não deixa dúvidas, não gera incertezas, permite que toda sua concentração e esforço sejam direcionados sem vacilar. Nem todas as flechas terão pontuação 10 mas ele sabe que está melhorando quando a série de flechas vai se agrupando e aproximando ao centro. Até a forma de mensurar sua evolução é bem clara. 

Nossa evolução profissional e pessoal tem começo meio e fim, começa no dia em que nascemos e termina no dia em que morremos. Participamos apenas do meio e levamos uma vida inteira para aprimorar. 

Observando o treino de um arqueiro, traçamos diversas paralelas com nossa busca pela evolução profissional. Como o arqueiro, ninguém inicia uma jornada acertando. Os ajustes da pontaria, da postura corporal, da força, vão sendo feitos ao longo dos anos de treino em um processo iterativo de planejamento, ação, medição e correção, o ciclo PDCA, sem a ilusão forjada pela mídia consumista do sucesso imediato. Até mesmo o instrumento utilizado pelo arqueiro vai evoluindo conforme ele vai se aprimorando, inicia com um arco muito simples e vai incorporando mira, aumentando a tensão da corda e o tamanho, melhorando a resistência, aumentando a estabilidade com as barras de simetria, etc. Acertar o alvo, como no caso do arqueiro se inicia tendo uma definição muito clara e precisa de qual é o alvo, não adianta olhar para o arqueiro ao lado porque o alvo dele é outro, parece muito igual, mas é outro, e você não pontua quando aponta para ele, somente para o seu. E quando sabemos qual é a nossa meta? Quando nós mesmos determinamos, porque ninguém sabe das suas necessidades e convicções de vida quanto você mesmo. Na vida é assim, quando você não toma uma decisão, alguém toma por você e sua meta acaba sendo imposta por esse alguém, e como já falei, na meta dos outros nós não pontuamos. Aprenda com o arqueiro, no dia do treino ele retira de sua bolsa a folha com o alvo (já usado, cheio de furos distantes do centro, rabiscado com anotações) posiciona no fardo, e inicia o treino, o alvo é dele e cada um posiciona o seu. 

16/09/2016 - Brasil, Rio de Janeiro, Sambódromo- Jogos Paralímpicos Rio 2016 - Tiro com Arco Jane Karla Gogel eliminada nas quartas de finais pela chinesa © Cezar Loureiro/MPIX/CPB
16/09/2016 – Brasil, Rio de Janeiro, Sambódromo- Jogos Paralímpicos Rio 2016 – Tiro com Arco Jane Karla Gogel eliminada nas quartas de finais pela chinesa © Cezar Loureiro/MPIX/CPB

 A ENERGIA 

Outro paralelo que podemos traçar é na forma como ele manuseia a mira. São duas coordenadas, na horizontal ele encontra a direção do alvo, e na vertical ajusta a energia, para isso ele encontra a altura certa a que tem que lançar a flecha para que ela trace uma parábola perfeita e encontre o ponto desejado, e esse é o ajuste mais interessante que temos no tiro com arco. Sabemos que a flecha é puxada pela gravidade e portanto durante seu trajeto vai perdendo altura, então é necessário mirar mais alto para compensar a perda de altura, ou seja, quanto mais se levanta o arco mais distancia alcança a flecha, no entanto, e é nesse ponto que quero chegar, se continuarmos a levantar o arco chegará o momento em que a flecha subirá e depois cairá antes de chegar no fardo, é o limite necessário da força do arco. Quanto mais se levanta a mira, mais longe a flecha vai alcançar, mas quem manda na altura é a condição que encontramos, ou seja, se por nossa decisão demandamos energia demais apontando o arco para cima, a flecha vai subir com força, mas vai cair antes de chegar no alvo. Nossa ansiedade muda a forma como enxergamos as coisas e nos apressa a conquistar os objetivos antes do tempo natural, e nessa ilusão dispensamos energia demasiada, e frustramos nosso intento vendo a flecha cair antes de atingir o fardo. Desperdício de energia e desperdício de tempo pois teremos que recolher as flechas e começar tudo de novo. Para toda a atividade que nos dedicamos, e para todo o resultado que buscamos, existe uma energia certa para se aplicar. Se nos dedicamos pouco, os obstáculos vão frustrar a jornada e o intento não se alcança, se forçamos por ansiedade, morremos na praia. É o voo da galinha. Portanto, uma vez que determinamos nosso objetivo precisamos determinar qual energia, ou qual o esforço que precisamos para alcança-lo, e aqui traduzimos o esforço por “planejamento”. Que ajustes precisamos fazer em nossa vida e que esforço é necessário para nos mantermos próximos ao alvo? 

PERSISTENCIA 

Assistir a um treino de tiro com arco é enfadonho pela monotonia e pela linearidade dos fatos. Não existe momento de mais ou menos emoção, é um repetir de preparar o arco, se posicionar, atirar, recolher as flechas e voltar para a posição, por horas a fio. Na verdade, o que está acontecendo neste ciclo iterativo é uma evolução lenta, porem consistente e eficaz, da conscientização de seus erros e a aplicação das ferramentas de correção, num aperfeiçoamento continuo movido pela persistência. Da mesma forma, o caminho para atingir uma meta profissional as vezes é longo e deve ser como o treino do arqueiro, revestido de muita persistência. Quem prestar atenção vai perceber que o treino só é enfadonho para quem assiste, porque o arqueiro está totalmente envolvido no processo de aprendizagem. O método engana a monotonia, a técnica mantém o foco no alvo, e a experiencia mostra o quanto seu objetivo está próximo. O arqueiro está acostumado com o erro, errar é parte do treino. Ele tem a consciência de que todos os erros de um dia inteiro de treino foram os responsáveis pelo único acerto no final do dia. 

A consciência do erro como parte do processo de aprendizagem e aprimoramento, permite nossa convivência com a frustração e o desânimo sem perder o foco no objetivo, convictos de que mais uma etapa foi vencida podemos nos reposicionar e começar novamente, e assim sucessivamente até que todo esse processo seja natural e a evolução leve em direção ao alvo central cumprindo nossa missão. 

E não se iluda, nossa vida é como a do arqueiro, quando alcança seu objetivo máximo de colocar as três flechas na pontuação máxima não existem aplausos, rojões ou gritos, não toca o hino da vitória, ele caminha até o fardo, retira as flechas guarda na aljava e retorna para se posicionar no ponto de tiro, … e começar tudo de novo! 


Eng. Mauricio F. Castagna

Engenheiro Clinico, Administrador, Consultor

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