A FÁBULA DO RATO

Uma fabula antiga conta que em uma fazenda vivia um rato, que tinha sua toca dentro da casa do fazendeiro. Um belo dia amanheceu e o rato, ao sair da toca, se deparou com uma caixa trazida pelo fazendeiro, muito curioso ficou à espreita esperando que alguém abrisse a caixa e revelasse o que havia em seu interior. Horas mais tarde os empregados da fazenda abriram a caixa e de lá tiraram uma grande ratoeira. O rato de tão apavorado que ficou com o novo objeto da casa, saiu pela fazenda buscando avisar a todos dos perigos que estavam por vir.

Foi até a galinha e contou o que tinha visto, e perguntou o que ela ia fazer, a galinha muito tranquila disse que não tinha nada com isso uma vez que ela era esperta e nunca seria pega pela ratoeira.

Foi então o rato até o porco e falou da ratoeira e da reação da galinha, mas também o porco disse que aquele assunto não o interessava porque a ratoeira estava dentro de casa e ele nunca entrava na casa.

Por fim o rato procurou a vaca, mas a reação dela não foi diferente, a vaca disse que a ratoeira era muito pequena para ela então ela não tinha com o que se preocupar.

Conformado o rato voltou para sua toca e procurou ter cuidado por onde andava para não ser pego pela armadinha.

Certa noite acordada pelo barulho característico da ratoeira a mulher do fazendeiro foi ver o que havia, e se deparou com uma cobra presa pelo rabo. Ao tentar soltar a cobra a mulher foi picada e caiu desacordada pela força do veneno. Levada às pressas ao seu quarto começou a piorar e então a cozinheira teve a ideia de preparar uma boa canja para lhe recobrar as forças, e matou a galinha.

Como se passaram os dias e a mulher do fazendeiro só piorava, os vizinhos e conhecidos preocupados começaram a frequentar a casa oferecendo ajuda. Como era grande o número de visitas, o fazendeiro resolveu matar o porco para poder alimentar a todos.

Por fim a mulher acabou morrendo por conta da enfermidade, e toda a comunidade veio prestar condolências e se despedir. Tamanho o número de pessoas que o fazendeiro pediu a cozinheira que matasse a vaca e preparasse comida a todos.

Assim o que era problema para um resultou em dano para todos.

Essa fábula já foi muito escrita e postada nos grupos sociais, mas um detalhe ao final da história que é bastante evidente vi poucos comentários a respeito, o fato de o único que saiu ileso foi o rato. Justamente o alvo principal da ratoeira. A informação da presença da armadilha eliminou o efeito surpresa, o medo e a antecipação do problema permitiram o planejamento da defesa. A compreensão do mecânica de funcionamento do efeito social na comunidade teriam permitido a galinha ao porco e a vaca também ao posicionamento de defesa.

Da mesma forma é a vida em comunidade, e dentro do ambiente corporativo não é diferente. As pessoas de uma empresa, por mais diferentes os cargos, atividades e responsabilidades, formam um corpo coeso que sente tudo o que se passa em seu meio, as vezes com mais intensidade, as vezes com menos.

Uma demissão pode acarretar em aumento de carga de trabalho para outros, uma admissão malfeita atrapalha o desempenho de vários, um gasto sem planejamento ou uma venda perdida causam restrições de orçamento que pesam para todos, e assim por diante. A falsa ilusão de que o problema dele não é problema meu impede a visão de quanto isso terá impacto em nossa vida, nossa rotina, e impede que você se prepare para um revés. O efeito surpresa magnifica o dano pela falta da antecipação.

Somos um corpo, não existe responsabilidade parcial dentro de uma organização, seja ela qual for. Ao final compartilhamos tudo, o prejuízo e o lucro.

APRENDENDO COM O ARQUEIRO

arco2A META 

O arqueiro tem apenas um objetivo, acertar no alvo, e apesar de existir uma pontuação progressiva, o arqueiro olha somente para o centro do alvo, essa é sua meta. O alvo de competição é composto por 10 círculos concêntricos de cores diferentes cujas pontuações vão de 1 a 10 sendo o círculo de valor 1 o que está mais distante do centro e o de valor 10 o que está exatamente no centro, a mosca. Esta meta central de valor 10 mede 8cm de diâmetro para arcos recurvos para uma distância de até 50 metros e sua cor é amarela, ou seja, para o arqueiro sua meta é muito bem definida, tem tamanho cor e valor, isso não deixa dúvidas, não gera incertezas, permite que toda sua concentração e esforço sejam direcionados sem vacilar. Nem todas as flechas terão pontuação 10 mas ele sabe que está melhorando quando a série de flechas vai se agrupando e aproximando ao centro. Até a forma de mensurar sua evolução é bem clara. 

Nossa evolução profissional e pessoal tem começo meio e fim, começa no dia em que nascemos e termina no dia em que morremos. Participamos apenas do meio e levamos uma vida inteira para aprimorar. 

Observando o treino de um arqueiro, traçamos diversas paralelas com nossa busca pela evolução profissional. Como o arqueiro, ninguém inicia uma jornada acertando. Os ajustes da pontaria, da postura corporal, da força, vão sendo feitos ao longo dos anos de treino em um processo iterativo de planejamento, ação, medição e correção, o ciclo PDCA, sem a ilusão forjada pela mídia consumista do sucesso imediato. Até mesmo o instrumento utilizado pelo arqueiro vai evoluindo conforme ele vai se aprimorando, inicia com um arco muito simples e vai incorporando mira, aumentando a tensão da corda e o tamanho, melhorando a resistência, aumentando a estabilidade com as barras de simetria, etc. Acertar o alvo, como no caso do arqueiro se inicia tendo uma definição muito clara e precisa de qual é o alvo, não adianta olhar para o arqueiro ao lado porque o alvo dele é outro, parece muito igual, mas é outro, e você não pontua quando aponta para ele, somente para o seu. E quando sabemos qual é a nossa meta? Quando nós mesmos determinamos, porque ninguém sabe das suas necessidades e convicções de vida quanto você mesmo. Na vida é assim, quando você não toma uma decisão, alguém toma por você e sua meta acaba sendo imposta por esse alguém, e como já falei, na meta dos outros nós não pontuamos. Aprenda com o arqueiro, no dia do treino ele retira de sua bolsa a folha com o alvo (já usado, cheio de furos distantes do centro, rabiscado com anotações) posiciona no fardo, e inicia o treino, o alvo é dele e cada um posiciona o seu. 

16/09/2016 - Brasil, Rio de Janeiro, Sambódromo- Jogos Paralímpicos Rio 2016 - Tiro com Arco Jane Karla Gogel eliminada nas quartas de finais pela chinesa © Cezar Loureiro/MPIX/CPB
16/09/2016 – Brasil, Rio de Janeiro, Sambódromo- Jogos Paralímpicos Rio 2016 – Tiro com Arco Jane Karla Gogel eliminada nas quartas de finais pela chinesa © Cezar Loureiro/MPIX/CPB

 A ENERGIA 

Outro paralelo que podemos traçar é na forma como ele manuseia a mira. São duas coordenadas, na horizontal ele encontra a direção do alvo, e na vertical ajusta a energia, para isso ele encontra a altura certa a que tem que lançar a flecha para que ela trace uma parábola perfeita e encontre o ponto desejado, e esse é o ajuste mais interessante que temos no tiro com arco. Sabemos que a flecha é puxada pela gravidade e portanto durante seu trajeto vai perdendo altura, então é necessário mirar mais alto para compensar a perda de altura, ou seja, quanto mais se levanta o arco mais distancia alcança a flecha, no entanto, e é nesse ponto que quero chegar, se continuarmos a levantar o arco chegará o momento em que a flecha subirá e depois cairá antes de chegar no fardo, é o limite necessário da força do arco. Quanto mais se levanta a mira, mais longe a flecha vai alcançar, mas quem manda na altura é a condição que encontramos, ou seja, se por nossa decisão demandamos energia demais apontando o arco para cima, a flecha vai subir com força, mas vai cair antes de chegar no alvo. Nossa ansiedade muda a forma como enxergamos as coisas e nos apressa a conquistar os objetivos antes do tempo natural, e nessa ilusão dispensamos energia demasiada, e frustramos nosso intento vendo a flecha cair antes de atingir o fardo. Desperdício de energia e desperdício de tempo pois teremos que recolher as flechas e começar tudo de novo. Para toda a atividade que nos dedicamos, e para todo o resultado que buscamos, existe uma energia certa para se aplicar. Se nos dedicamos pouco, os obstáculos vão frustrar a jornada e o intento não se alcança, se forçamos por ansiedade, morremos na praia. É o voo da galinha. Portanto, uma vez que determinamos nosso objetivo precisamos determinar qual energia, ou qual o esforço que precisamos para alcança-lo, e aqui traduzimos o esforço por “planejamento”. Que ajustes precisamos fazer em nossa vida e que esforço é necessário para nos mantermos próximos ao alvo? 

PERSISTENCIA 

Assistir a um treino de tiro com arco é enfadonho pela monotonia e pela linearidade dos fatos. Não existe momento de mais ou menos emoção, é um repetir de preparar o arco, se posicionar, atirar, recolher as flechas e voltar para a posição, por horas a fio. Na verdade, o que está acontecendo neste ciclo iterativo é uma evolução lenta, porem consistente e eficaz, da conscientização de seus erros e a aplicação das ferramentas de correção, num aperfeiçoamento continuo movido pela persistência. Da mesma forma, o caminho para atingir uma meta profissional as vezes é longo e deve ser como o treino do arqueiro, revestido de muita persistência. Quem prestar atenção vai perceber que o treino só é enfadonho para quem assiste, porque o arqueiro está totalmente envolvido no processo de aprendizagem. O método engana a monotonia, a técnica mantém o foco no alvo, e a experiencia mostra o quanto seu objetivo está próximo. O arqueiro está acostumado com o erro, errar é parte do treino. Ele tem a consciência de que todos os erros de um dia inteiro de treino foram os responsáveis pelo único acerto no final do dia. 

A consciência do erro como parte do processo de aprendizagem e aprimoramento, permite nossa convivência com a frustração e o desânimo sem perder o foco no objetivo, convictos de que mais uma etapa foi vencida podemos nos reposicionar e começar novamente, e assim sucessivamente até que todo esse processo seja natural e a evolução leve em direção ao alvo central cumprindo nossa missão. 

E não se iluda, nossa vida é como a do arqueiro, quando alcança seu objetivo máximo de colocar as três flechas na pontuação máxima não existem aplausos, rojões ou gritos, não toca o hino da vitória, ele caminha até o fardo, retira as flechas guarda na aljava e retorna para se posicionar no ponto de tiro, … e começar tudo de novo! 


Eng. Mauricio F. Castagna

Engenheiro Clinico, Administrador, Consultor

A ORGANIZAÇÃO DAS SANTAS CASAS DE MISERICORDIA

santa casa

Publicado em maio de 2016 na revista Hospitais Brasil

A história das Santas Casas sempre me fascinou, principalmente pela arquitetura antiga de algumas delas. Em algumas décadas de atividade que tenho exercido, tive oportunidade de frequentar diversas unidades da Santa Casa pelas cidades do Brasil. Nas minhas indas e vindas entre as paredes grossas seculares, corredores ladeados de colunas e estruturas portentosas, corria os prédios antigos com a cabeça nos desafios profissionais e os olhos na história aparente nos tijolos de cada ala que eu entrava.

Apesar da minha admiração, sempre tive também desconhecimento de particularidades quanto a administração e sustento das Irmandades, como muitos outros com os quais conversei a respeito. Confesso, ignorante que fui, que sempre pensei que as Irmandades estivessem de alguma forma ligada a Igreja católica em sua origem e financiamento. Depois de algumas gafes percebi que precisava pesquisar e me informar mais a respeito, e como toda jornada de conhecimento leva a descobertas incríveis, também tive as minhas sobre a História das Santas Casas no Brasil, e decidi dividir as poucas informações que consegui com os leitores deste meu blog.

As primeiras informações chamam a atenção, as Santas Casas somam mais de 2.100 hospitais, espalhados em todo o território nacional, responsáveis por quase cerca de 50% do número de leitos hospitalares existentes no país. São instituições particulares, laicas e filantrópicas, que em muitos municípios brasileiros garantem o serviço de saúde da população através de seus hospitais. Quando criada em Portugal foi a primeira legítima ONG do mundo, em um tempo em que seria impensável a existência de uma instituição social que se declarasse leiga e não governamental. Da época de sua fundação em Portugal até a metade do século XVIII, a Santa Casa foi dirigida por pessoas situadas nos altos escalões do governo e cresceu com ajuda de doações e pelo prestígio que a Santa Casa ganhava com o desenvolvimento econômico da colônia. Era uma instituição fechada, pois só faziam parte os representantes da elite local ou aqueles que tinham alcançado uma posição privilegiada na sociedade colonial

No Brasil o título de primeiro Hospital da Santa Casa divide a opinião de alguns historiadores entre São Paulo e Olinda, e eu decidi acompanhar os relatos do historiador Francisco Pereira da Costa reconhecendo na cidade de Olinda a primeira Irmandade da Santa Casa, construída em 1539 e seguida pela Santa Casa de Santos em 1543 ainda com o nome de Hospital de Todos os Santos, nome que depois deu origem a vila e a Cidade de Santos.

As dez primeiras instituições que foram criadas no Brasil são:

1539 – Santa Casa de Misericórdia de Olinda (PE)

1543 – Santa Casa da Misericórdia de Santos (SP)

1549 – Santa Casa de Misericórdia de Salvador (BA)

1582 – Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (RJ)

1551 – Santa Casa de Misericórdia de Vitória (ES)

1599 – Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (SP)

1602 – Santa Casa de Misericórdia de João Pessoa (PB)

1619 – Santa Casa de Misericórdia de Belém (PA)

1657 – Santa Casa de Misericórdia de São Luís (MA)

1792 – Santa Casa de Misericórdia de Campos (RJ)

 

Quando criadas no Brasil tinham como objetivo atender à população carente, cuidando dos enfermos em seus hospitais, alimentando os famintos, sepultando os mortos, educando os enjeitados em seus orfanatos e acolhendo os recém-nascidos abandonados na Roda dos Expostos. A fonte de renda vinha inicialmente das doações e esmolas. A partir do século XIX essas entraram em decadência e outras surgiram: festas filantrópicas, recursos de loterias, convênios e subvenções estatais. Ao mesmo tempo, as ações voltadas para a assistência médica foram crescendo em detrimento das demais atividades, ou seja, durante o Império, as Santas Casas acompanharam algumas mudanças da sociedade e o foco passou a ser o cuidado com os enfermos e amparo à infância desvalida. Foi uma resposta ao cenário epidemiológico criado pelas epidemias do século XIX, que resultou no aumento de órfãos, mendigos e doentes.

Infelizmente em julho de 2014 o fechamento do pronto socorro da Santa Casa de São Paulo revelou a situação dramática que esta e outras instituições de caridade enfrentam atualmente por conta de desmandos políticos, ingerência financeira, corrupção. Uma imagem do cenário caótico da administração da saúde brasileira. A história continua sendo escrita, mas desta vez sem a beleza arquitetônica ou o ideal da caridade.

A NOVA ORDEM NO MERCADO DE CALIBRAÇÃO DE EQUIPAMENTOS CLINICOS

 Publicado em abril de 2012 no site Saúde Business

A atividade de calibração dos equipamentos clínicos tem sido intensa nos últimos anos por conta das ações regulatórias e de entidades como a ONA, no intuito de melhorar a confiabilidade dos aparatos utilizados no diagnóstico e no tratamento de pacientes. A iniciativa privada, por sua vez, reagiu imediatamente e vem aumentando a oferta de serviços, competindo por espaço no mercado e os tomadores de serviço, ou seja, aqueles que deveriam impor as regras do mercado, não tem reagido na mesma velocidade. Por conta disso temos observado a queda na qualidade dos serviços de calibração pela falta de controle dos operadores.

INTRODUÇÃO

Quem observa o mercado da saúde, especificamente os serviços de engenharia pôde notar com bastante clareza que, desde meados de 2003 os preços médios dos serviços de calibração tem apresentado um movimento de queda acentuado a tal ponto de ficar difícil tanto para os tomadores de serviço como para os prestadores, de se estabelecer um referencial de preços. Em 2002 um certificado de calibração para um ventilador pulmonar (independente de marca) era oferecido em torno de 500,00 a 750,00, e eram poucas as empresas que se declaravam qualificadas para o serviço. Hoje, nove anos depois, é fácil encontrar empresas que cobram em torno de 80,00 ou até menos para os mesmos ventiladores, e dezenas de empresas que oferecem o serviço, ou seja, uma taxa de queda de 22% ao ano . Qual foi a causa e como o mercado tem reagido a esse reajuste negativo?

O QUE MOTIVOU A BAIXA?

Em uma realidade em que a inflação do setor de serviços nos últimos 5 anos tem estado na faixa de 5,8%[1] ao ano, por conta de um crescimento do PIB médio de 4,6%[2] no mesmo período, o que explica essa queda de preços contrariando a tendência do mercado de serviços? Sabemos que os preços praticados sempre refletem a capacidade de atendimento frente a demanda, e portanto, refletem o mercado.  E se o mercado tem demonstrado crescimento, porque os preços têm apresentado movimento contrario? Ou seja, o que percebemos não é simplesmente uma reação matemática ao movimento natural do mercado mas sim a presença de outro fator determinante mais forte que a busca das instituições por um serviço de qualidade. Para entender esse fenômeno temos que analisar o mercado, o que consiste basicamente em analisar os dois lados, o da demanda e o da oferta.

Durante a era Lula a economia brasileira teve um considerável crescimento, atingindo patamares de 6 %[3] ao ano nos seus melhores dias, frente aos 2,7% ainda no governo anterior, o que não quer dizer muita coisa porque se tratou também de um reflexo do crescimento mundial. Também houve um considerável aumento na carga tributária injetando 5,6 bi[4] a mais por ano no setor publico da saúde desde 2005, e assim tanto o setor privado quanto o setor público foram beneficiados com as políticas financeira e tributária dos últimos anos. Ponto positivo para a demanda.

Outro fator importante a considerar pelo lado da demanda foi o fortalecimento das políticas regulatórias e programas de gestão da qualidade. O surgimento da ANVISA em janeiro de 99 e a publicação das RDC’s foram um incentivo muito forte para as políticas da qualidade que já vinham se instalando (ONA, CQH, JCAHO, ISO 9000, etc) e trouxeram consigo o tema da calibração, que até então era uma novidade para as instituições de saúde e seus Engenheiros Clínicos. Estes tinham pouco conhecimento do tema naquela época.

Desta forma estava montado o cenário para o crefig 1scimento da demanda por serviços, pela injeção de dinheiro público e pelas novas exigências regulatórias e da qualidade. Mas então, se a demanda cresceu de forma tão acelerada e não haviam os prestadores de serviço para atendê-la, o que fez com que o preço do serviço não disparasse junto? Essa sim seria a reação natural. Obviamente, de olho no que estava acontecendo e, percebendo a oportunidade, um grande número de empresas se lançou (e ainda vem se lançando) no mercado oferecendo os serviços de calibração. Eram empresas que migraram dos serviços de manutenção, de engenharia clinica e até das representações comerciais para aproveitar um momento de abertura. Não eram tradicionalmente da área de metrologia, de forma que não tinham a estrutura adequada e nem profissionais especializados e, a calibração que estavam oferecendo, muito longe do tecnicamente ideal, estava sendo aceita pelo mercado. Na falta de qualificação a única forma de conquistar market share foi oferecendo menor preço, resultando numa curiosa reação contraria ao que parecia ser a tendência natural de valorização, e este sim foi o fator determinante pelo lado da oferta que levou ao barateamento do mercado de calibração.

Entendendo então o que aconteceu, o mercado respondeu a alta do consumo com aumento de oferta, e o tomador de serviços não foi seletivo na escolha do fornecedor, recusando os prestadores desqualificados. A falta da prática de qualificação de fornecedor, por despreparo ou mesmo por força econômica, permitiu o estabelecimento de serviços de baixa qualidade.

REFLEXOS NO MERCADO

Mas afinal, o que significa tudo isso então como atividade comercial? O ambiente competitivo com a conseqüente redução de preços permitiu que os hospitais pudessem implementar programas de calibração de forma mais ampla, ampliando os cuidados com os equipamentos com acompanhamento metrológico regular e criterioso. Algo impensável no inicio de 2000 para a maioria dos hospitais, que não encontravam respaldo legal para justificar a contratação deste tipo de serviço.

Da mesma forma que a guerra de preços entre operadoras de saúde popularizou o acesso a rede privada de Hospitais entre a classe média de uma forma geral, os hospitais foram beneficiados com essa nova realidade. Obviamente a guerra de preços, de uma forma ou de outra, é acompanhada por queda da qualidade, como tem acontecido nos dois casos, nas operadoras de saúde e nas empresas prestadoras de serviços de calibração, reforçando para os Engenheiros Clínicos a necessidade de se trabalhar com a qualificação de fornecedores, de se avaliar de forma critica os certificados e os resultados das calibrações e de incorporar em seu arcabouço de conhecimentos mais esta disciplina e todos os seus melindres.

O setor ainda está em crescimento. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) o Brasil foi considerado o segundo maior mercado de saúde privada do mundo, e recentemente fomos apontados como a 6ª economia no mundo de acordo com dados do Centro de Economia e Pesquisa de Negócios (CEBR), o que significa que “a coisa” ainda vai esquentar bastante. O que precisamos pensar é como regular esta atividade, melhorando a qualidade dos serviços de calibração e mantendo o mesmo patamar de preços, é importante que cada vez mais os gestores de Engenharia adotem esta pratica como parte da rotina, elevando o padrão de qualidade no cuidado com os equipamentos.

pib

COMO REGULAR

Se é fato que a regulamentação compulsória aplicada por agencias governamentais trariam, junto com os benefícios, efeitos colaterais indesejáveis (O que é obrigatório generaliza uma necessidade particular que nem sempre se aplica em todos os casos criando um problema ao invés de uma solução), então a melhor regulação aconteceria pelos tomadores de serviço que, neste caso, são os Engenheiros Clínicos, ou os gestores da tecnologia qualquer que seja sua formação ou nome de cargo, avaliando criticamente a qualidade do serviço prestado versus o preço e contratando mediante especificações e tolerâncias definidas nos processos clínicos, e desta forma rejeitando as empresas despreparadas ou mau intencionadas. Somente por meio da atuação consciente e preparada dos gestores poderá acontecer naturalmente o equilíbrio entre a oferta e a demanda sem interferências governamentais. Equilíbrio natural é o que  pregava o economista Adam Smith nas primeiras décadas de 1700.

A minha preocupação está na figura dos gestores. É da mão deles que este equilíbrio será encontrado. Será que temos Engenheiros Clínicos suficientemente preparados para conduzir uma seleção de prestadores de serviço em um mercado crescente e altamente competitivo sem que se perca o foco do que é necessário metrologicamente? Como anda a disciplina de metrologia nos cursos de Engenharia Clinica que tem se proliferado Brasil afora? Quanto vale este serviço para o Hospital? E para o Engenheiro Clinico?

Tenho observado nos hospitais pelo país como são jovens os profissionais que estão liderando as equipes de Engenharia. Os grandes hospitais, por exemplo, já tem alcançado a excelência na gestão de EC, e muitos estão bem preparados neste tema, mas eles representam apenas 2% dos estabelecimentos do país, enquanto nos restantes 98% eu tenho presenciado situações preocupantes de profissionais muito aquém do que seria tolerável na condução de um programa de calibração, contratando pelo menor preço absoluto (como se fossem instituições públicas) deixando de lado os valores representativos de empresas qualificadas, colocando por terra nossa discussão por uma regulação natural do mercado.

 inflação

CONCLUSÃO

O papel da calibração é tornar conhecido o erro inerente e conseqüentemente a incerteza da medição de um instrumento no momento de sua utilização para que seja levado em consideração no processo clinico do Hospital quando, por exemplo, da monitoração dos parâmetros fisiológicos, ou da manutenção da temperatura de incubadoras ou do volume de medicamento infundido durante tratamento, ou qualquer que seja o processo em que o erro associado ao mensurando tenha influencia direta na efetividade do tratamento/diagnóstico, e também que as devidas correções sejam adotadas segundo o resultado obtido, ou seja, a calibração não é uma atividade demandada pela Engenharia como alguns a consideram. Na verdade é uma atividade controlada pela Engenharia mas demandada pelo corpo clinico.

O Engenheiro Clinico por sua vez tem, no universo metrológico, a missão de promover a adequação dos resultados da calibração com as demandas do processo clinico de tratamento/diagnóstico, e no universo mercadológico avaliar criticamente os fornecedores contratados no que concerne a qualidade do serviço prestado, e o valor destes serviços.

A guerra de preços que tem tomado conta do mercado pelo excesso de liberdade na concorrência tem comprometido substancialmente a qualidade oferecida dos serviços e deve ser combatida. Como tomador de serviço, o Engenheiro Clinico representa hoje a grande força potencial na mudança deste cenário, por mais que ele desconheça essa realidade. Estamos vivendo o momento da convergência, encarando de frente a decisão entre estabelecer uma nova ordem no mercado ou seguir neste processo autodestrutivo. Qual será a opção que vamos escolher?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1  “The 2011 Report on Calibration Services: World Market Segmentation by City “ – Professor Philip M. Parker, PhD

2 – “Global Calibration Services Market“, June 2012 – Robert Liley

3 – “Estudo da oferta e demanda por serviços laboratoriais de ensaios e  calibração – ODSLEC”,  INMETRO – 2009

[1] Fonte: IBGE, Ipea
[2] Fonte: Banco Central
[3] Fonte: Banco Central, IBGE
[4] Fonte: IBGE e Ministério da Fazenda