CRITÉRIOS PARA O PLANEJAMENTO DAS MANUTENÇÕES – Parte 1/3

plano

Mauricio Castagna jan/2018

Trabalhei como Engenheiro Clinico em um hospital tradicional em São Paulo voltado a cirurgias e, quando assumi ainda havia muito trabalho por fazer. Já existia uma EC mas as rotinas não estavam bem definidas, ainda não existia o manual da qualidade com seus POPs , normas e formulários, e uma das tarefas que me cabia seria escrever todos os procedimentos que seriam a base para a coordenação do Departamento. 

Quando atingi o ponto de descrever os critérios para a definição de criticidade dos equipamentos me esbarrei mais uma vez no método de Fennigkoh & Smith, publicado em 1991 e utilizado largamente por grande parte dos Engenheiros Clínicos e até mesmo pela Organização Mundial de Saúde que fez uma adaptação ao texto original. Eu mesmo utilizei este método em vários hospitais, e poucas vezes encontrei alguma coisa realmente diferente nesta área, o que sempre me deixou desconfortável, não pelo fato de ser o método ruim, muito pelo contrário, mas pela falta de opção. 

Quanto ao mérito deste método, com todo o respeito ao Dr Larry Fennigkoh que no ano passado entrou para o Hall of Fame da ACCE, sempre percebi que a classificação em alguns equipamentos não batia com a realidade da instituição. Isso porque sendo o Hospital público, privado, instituição de caridade, clínica particular, muda o entendimento do que é prioritário, ainda que o foco seja a segurança, como por exemplo a interrupção no faturamento, que pode ser extremamente crítico no mundo da saúde capitalista. 

Pensando nisso, estudei um outro método que é usado na indústria e que com alguma adaptação consegui adequar ao nosso hospital e percebi que o resultado atendeu em muito a nossa expectativa. Também percebi que esta versão permite com facilidade atender aos anseios de Hospitais de diferentes formações sócio/administrativas, como por exemplo, ser mais direcionado para a saúde social, com pouca modificação. 

Na breve explicação que vou expor adiante, quero mostrar como funciona o critério para classificação de criticidade, bem como a forma de se utilizar esta classificação para priorização e coordenação dos principais tipos de intervenção técnica. Essas são ferramentas decisórias muito importantes na rotina de um Departamento técnico, além de atender as exigências da ONA. Como ilustração vou também mostrar alguns exemplos de como ficaram classificados os equipamentos mais relevantes no processo produtivo do hospital. 

 O MÉTODO 

 São vários os tipos de intervenção técnica coordenadas pela Engenharia Clinica durante um período de atividade produtiva. O perfil do hospital e o perfil do parque tecnológico determinam qual destas intervenções deverá ser feita e com qual intensidade. Os recursos humanos e financeiros do Setor de Engenharia Clinica também serão determinantes no planejamento da matriz de intervenções, pois afinal nem tudo o que aprendemos na academia é possível de ser implementado se não temos todas as ferramentas. Quanto mais os recursos forem incompatíveis com as demandas, maior será a necessidade de utilizar critérios para a execução dos trabalhos de forma organizada e eficaz. Quando vários chamados são feitos ao mesmo tempo e não temos pessoal suficiente, qual atendemos primeiro? Quando queremos calibrar todos os equipamentos mas o orçamento não permite, quais serão os eleitos? 

 Antes de mais nada vamos entender quais são as intervenções técnicas mais comuns ao ambiente hospitalar com relação aos dispositivos médicos: 

 - Ronda: Inspeção rotineira visual rápida em um grupo de equipamentos de um ou mais Setores seguindo uma rotina escrita para verificar condições mínimas de funcionamento. Sempre com anuência do profissional responsável do Setor. Pode ser determinada pelo período do dia (sempre no início da manhã), ou pela mudança de paciente (terminal em um quarto de internação, ou sala cirúrgica), ou pela troca de plantão da equipe assistencial, etc. 

 – Manutenção corretiva: Combinação de meios técnicos e administrativos para manter ou restabelecer as condições de funcionamento de um bem (IEC 62353:2014 ). Resulta de uma parada não programada, e normalmente é a atividade que mais consome horas de trabalho neste Setor. 

 – Manutenção preventiva: Ação que verifica e corrige pontos de desgaste, ou condições especificas que possam evoluir para uma parada de funcionamento. Essa é a antecipação a uma parada indesejada. Essa é a responsável pelo planejamento mais volumoso e as vezes o maior orçamento anual. 

 – Calibração: Operação que estabelece uma relação entre os valores e as incertezas de medição fornecidos por padrões e as indicações correspondentes com as incertezas associadas.  Adaptado do VIM_2012 (INMETRO).  

 Qualificação da instalação: Evidência documentada, fornecida pelo fabricante ou distribuidor, de que o equipamento foi entregue e instalado de acordo com as suas especificações. (ANVISA – RDC 15/2012). 

 Qualificação de operação: Evidência documentada, fornecida pelo fabricante ou distribuidor, de que o equipamento, após a qualificação da instalação, opera dentro dos parâmetros originais de fabricação. (ANVISA – RDC 15/2012). 

 Qualificação de desempenho: Evidência documentada de que o equipamento, após as qualificações de instalação e operação, apresenta desempenho consistente por no mínimo 03 ciclos sucessivos do processo, com parâmetros idênticos. (ANVISA – RDC 15/2012). 

 – Teste de segurança Elétrica: Série de ensaios previstos na norma IEC 62353:2014 – Medical electrical equipment – Recurrent test and test after repair of medical electrical equipment  que atestam quanto ao funcionamento do sistema de proteção quanto a choque elétrico. 

– Verificação: Ação de metrologia legal realizada pelo INMETRO anualmente para medição de erro e incerteza de medição conforme portaria INMETRO nº 153/2005 e Norma NIE-DIMEL-006. Ação legal e portanto obrigatória mas que muitas vezes é negligenciada pelos Hospitais. 

 – Teste hidrostático: Ensaio para verificação de pressão máxima de trabalho permitida (PMTP) do vaso de pressão. São feitos os ensaios seguindo a Norma Regulamentadora 13, ou NR-13, que dita os regulamentos pertinentes a operação com segurança dos vasos de pressão. Também é uma ação legal e tambem obrigatória. 

 GLOSSÁRIO 

 VIM – Vocabulário Internacional de Metrologia 

INMETRO – Instituto Nacional de Metrologia 

ANVISA – Agencia Nacional de Vigilância Sanitária 

RDC – Resolução da Diretoria Colegiada 

NIE – Norma Inmetro Específica 

DIMEL – Diretoria de Metrologia Legal 

IEC – International Electrotechnical Comission 

SLA – Service Level Agreemente (Acordo de Nível de Serviço) 

Duty Cicle – Ciclo de trabalho 

 

A execução de qualquer tipo de atividade técnica que interfira no funcionamento do equipamento requer planejamento e tomada de decisão, mesmo quando se trata de um atendimento de urgência. O que fazer, quando, quantas vezes e em qual equipamento? A resposta destas questões depende de decisões que devem se basear em um sistema de critérios previamente estabelecidos para que as prioridades sejam respeitadas e os riscos minimizados. Não podemos deixar para decidir qual a melhor forma de agir no ápice de uma crise. Mesmo crises são previsíveis e a metodologia tem que ser definida antes e executada quando necessário. Como quando acontece um incêndio, ninguém quer, mas quando acontece os bombeiros já sabem exatamente o que fazer. É assim que tem que ser no ambiente hospitalar. 

Neste método serão formados os critérios para tomada de decisão em cada um dos tipos de intervenção técnica partindo da determinação do índice de criticidade que será utilizado de forma combinada com outros índices.  

 – Estabelecimento de um Índice de criticidade  

 Para estabelecer a Criticidade dos equipamentos adotamos 5 parâmetros que traduzem as principais estratégias de negócio da instituição colocadas de forma decrescente pela sua importância e montamos um sistema de matriz definindo 3 níveis para cada parâmetro, a saber: Nível 1, Nível 2 e Nível 3. Estes níveis estabelecem o grau de comprometimento da operação ligada a este equipamento no caso de uma falha do mesmo, sendo o nível 1 o maior comprometimento e 3 o menor, lembrando que a falha a ser considerada é apenas uma e aquela em que interrompa o funcionamento do equipamento de uma forma geral. 

 

A tabela a seguir mostra a matriz de comprometimento.  

 

Parâmetro  Nível 1  Nível 2  Nível 3 
Segurança 

Efeito de uma única falha do equipamento quanto a riscos potenciais para pacientes, usuários e patrimônio 

A falha no equipamento acarreta em risco de lesões graves ou até mesmo morte para o paciente e/ou usuário ou até mesmo danos ao patrimônio do hospital  Uma falha no equipamento acarreta riscos moderado de danos ou erro de diagnóstico/terapia   Os riscos para o paciente ou o operador em decorrência de uma falha são aceitáveis. 
Confiabilidade 

Efeito da falha do equipamento sobre a continuidade e confiabilidade das atividades do hospital 

Uma falha no equipamento pode provocar a interrupção total no processo produtivo ou no procedimento cirúrgico  Uma falha atrapalha a continuidade de um procedimento cirúrgico ou um processo  Uma falha não causa problemas nos processos assistenciais 
Custo 

Custos envolvidos na manutenção (mão de obra – peças – locação – etc) 

O custo de reparo é de R$ 10.000,00 ou mais  O custo de reparo fica entre R$ 3.000,00 e R$ 10.000,00  O custo de reparo é inferior a R$ 3.000,00 
Disponibilidade 

Quantidade de unidades similares disponíveis para reposição 

É equipamento único para a sua atividade no hospital   Existem de 1 a 3 equipamentos similares operacionais  Existem 3 ou mais equipamentos similares operacionais no hospital. 
Freqüência 

Número de paradas por quebra,  por período de utilização. 

Muitas falhas causando indisponibilidade durante o período. 

(3 ou mais por ano) 

Poucas falhas causando indisponibilidade durante o período. 

(até 2 por ano) 

Quase nunca causa uma parada (1 por ano) 

 

 A matriz por si só não fornece o índice, apenas pontua os parâmetros que tem grande impacto no processo de assistência ao paciente em diferentes níveis de comprometimento. Para se determinar o.nível de criticidade de cada equipamento utilizamos um diagrama decisório montado com base nos dados da matriz de comprometimento, que nos conduz para três níveis, que são eles: 

A – Crítico                              B – Semi-critico                          C – Não crítico  

 DIAGRAMA DECISÓRIO

Diagrama decisorio

 

Como fica a aplicação do  Índice de Criticidade de cada tecnologia segundo o método descrito.

Segurança Confiabilid. Custo Disponibil. Frequencia Classe
Arco Cirúrgico 2 2 1 2 A
AutoClave 3 1 2 2 A
Bomba de Infusão 1 2 3 3 A
Bomba de Infusão de Seringa 1 2 3 3 A
Cardioversor 1 2 3 2 A
Desfibrilador 1 2 3 2 A
Lavadora Ultrasônica 3 1 3 2 A
Osmose Reversa 3 1 3 1 A
Processador de Vídeo 2 1 3 2 A
Processadora de Raio X 3 1 3 1 A
Raio-X 2 1 2 1 A
Raio-X – Móvel 2 1 2 2 A
Tomográfo 2 1 1 1 A
Unidade de Anestesia 1 1 2 2 A
Unidade de Hemodiálise 1 1 3 1 A
Unidade de Hemodinâmica 2 1 1 1 A
Unidade de Ultrassom 2 1 2 1 A
Ventilador Pulmonar 1 1 3 2 A
Câmara de resfriamento 3 3 3 1 B
Estufa para Cultura Bacteriológica 3 3 3 1 B
Foco Cirúrgico 3 2 3 1 1 B
Incubadora para teste biológico 3 3 3 1 B
Mesa Cirúrgica 2 2 3 1 1 B
Sistema de Tratamento de Efluentes 3 3 3 1 B
Unidade de Imagens 2 2 2 1 1 B
Video Printer 3 3 3 1 B
Aspirador Cirúrgico 3 2 3 3 C
Balança 3 3 3 3 3 C
Central de Comunicação 3 2 2 1 3 C
Compressor de membros 2 2 3 2 C
Fotóforo 3 2 3 3 C
Gravador de DVD 3 2 3 2 C
Maca de Transporte 2 2 3 3 C
Microscópio Cirúrgico 2 2 2 1 3 C
Monitor Multiparametros 2 2 3 3 C
Seladora 3 2 3 2 C

 

 

 

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