ENGENHARIA DE USABILIDADE NA PRÁTICA

Publicado em março de 2016 na revista hospitais Brasil

Nos Estados Unidos cerca de 195.000 pessoas morrem todos os anos vitimas de erros médicos potencialmente evitáveis. O FDA recebe via o CDRH mais de 100.000 relatórios de incidentes com equipamentos clínicos por ano sendo praticamente um terço deles relacionados com o erro de utilização segundo dados apresentados pela Association for the Advancement of Medical Instrumentation (AAMI) em uma conferencia em Washington no ano de 2005. Já no Brasil, apesar de todos os esforços da ANVISA, os incidentes com produtos para a saúde são sub-relatados, mas sabemos que 73,3% dos erros médicos poderiam ser evitados, segundo estudos da FIOCRUZ apresentados em julho deste ano. Todos estes números não conseguem expressar exatamente o quanto dos erros estão associados à dificuldade de utilização dos chamados produtos para a saúde, mas com certeza mostram que ações precisam ser tomadas no sentido de se buscar mais segurança ao paciente. Tanto mais quanto mais avança a tecnologia. Walter Mendes, pesquisador da Fiocruz, quando entrevistado a respeito do resultado da pesquisa disse sabiamente “A questão é adotar mecanismos que impeçam que o erro chegue ao doente”, e entre estes mecanismos está a Engenharia de Usabilidade (EU)que é um processo que procura desenvolver produtos, softwares e sistemas que atendam as necessidades, capacidades e limitações dos usuários, ao invés de esperar que estes se adaptem ao desenho do produto.  A EU é um processo que funciona junto com o gerenciamento de risco buscando reduzir o erro de operação, induzido pela própria tecnologia, a um limite aceitável.

A Engenharia de Usabilidade, também conhecida como Engenharia de Fatores Humanos, teve origem na indústria aeronáutica e vem evoluindo na área médica nos últimos anos. É um processo que tem inicio na concepção do produto e só termina com o descarte do mesmo, passando por todas as fazes de desenvolvimento, rotulagem, distribuição e utilização. Tem como foco principal a segurança do produto e procura entender o profissional e os fatores do meio que podem ter alguma influencia no aumento do risco de operação.

Anualmente o Instituto ECRI americano publica ao final do ano uma lista com os 10 maiores perigos na tecnologia médica, identificando aquelas que estarão em evidencia durante o ano seguinte nos estudos relacionados com a segurança do paciente, ou seja aquilo que tem chamado a atenção dos especialistas por apresentar de fato risco de utilização. Interessante observar que da lista de 10 itens, pelo menos 7 estão relacionados com o uso da tecnologia em si, ou melhor com o erro na utilização.  O erro de utilização acontece quando existem  problemas de interação entre o ser humano e a maquina, não necessariamente por falta de instrução mas muito mais pela relação entre o desenho do produto, a condição ambiental em que as pessoas estão inseridas e a condição psíquica no momento desta interação. Um caso típico são os alarmes incorporados massivamente na tecnologia nos últimos anos que, apontados pelo ECRI como numero 1 em sua lista, tem sido um fator negativo no ambiente clinico e motivo de stress da equipe de enfermagem por conta da quantidade deles acionados simultaneamente e até mesmo da tonalidade sonora utilizada, aumentando o nível de desatenção e consequentemente da probabilidade do erro.

Mas o impacto da implantação de um processo de EU não recai somente sobre a segurança do produto. Segundo um estudo de Michael Wiklund, especialista americano em Human Factors, o ROI (Retorno sobre um investimento) pode chegar a 10:1 sobre cada dólar investido em Engenharia de Usabilidade[1], trazendo ao produto desenvolvido por este processo, as seguintes vantagens adicionais:

– Menor número de erros de utilização

– Menos retornos de projeto

– Reduz o risco associado ao produto e portanto menor incidência de litígios

– Menor custo em treinamento e educação continuada

– Menor custo de suporte e assistência

 

Na prática um produto desenvolvido por meio das técnicas de Engenharia de Usabilidade deve passar pelo menos pelos seguintes passos:

– Determinação da aplicação do produto

– Identificação das funções frequentemente utilizadas

– Identificação dos perigos e das situações perigosas relacionadas a usabilidade

– Identificar as funções de operação primaria

– Desenvolver as especificações de usabilidade

– Preparar um plano de validação

– Desenvolver a interface do usuário

– Validar a usabilidade do produto

 

No Brasil estamos ainda engatinhando neste tema. A primeira norma publicada pela ABNT exclusivamente voltada à Engenharia de Usabilidade para o produtos para a saúde foi a “NBR IEC 62366 : 2010 Aplicação da engenharia de usabilidade a produtos para a saúde” publicada em maio de 2010. Hoje outras normas estão sendo produzidas e deverão ser publicadas em breve. Alguns programas de incentivo tem nos permitido participar nas reuniões da IEC – International Eletrotechnical Commission no exterior ,na produção destas normas junto aos maiores especialistas de Human Factors do mundo, o que deve fomentar em médio prazo a criação de know how nacional em processos de Engenharia de Usabilidade.

 

[1] Michael Wiklund, “Return on Investment in Human Factors,” Medical Device & Diagnostic Industry 27, no. 8 (2005): 48–55.

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