O PAPEL DO ENGENHEIRO CLINICO NO PLANO NACIONAL DE GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS SÓLIDOS

Publicado em janeiro de 2014 na revista Hospitais Brasil

Qual tem sido a participação do Engenheiro Clinico no Plano de Gerenciamento de Resíduos sólidos de sua instituição? Segundo a PNGRS os estabelecimentos de serviços de saúde são os responsáveis pelo correto gerenciamento de todos os Resíduos de Serviços de Saúde (RSS) por eles gerados, cabendo aos órgãos públicos, dentro de suas competências, a gestão, regulamentação e fiscalização.

O Decreto Federal no 7.404, de 23 de dezembro de 2010, regulamentou a Lei  no 12.305/2010 que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, criou o Comitê  Interministerial da Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Comitê Orientador para a  Implantação dos Sistemas de Logística Reversa. Esta lei, assinada em agosto de 2010, e que está em fase de implementação através de seus planos nacionais, estaduais e municipais, é o resultado de mais de 20 anos de discussão iniciada com a publicação da Resolução CONAMA 006/91, que dispunha sobre o tratamento dos resíduos sólidos de saúde e acabava com a prática de incineração. O PNGRS introduziu novas preocupações como a gestão compartilhada, a logística reversa e as disposições gerais sobre os planos de resíduos sólidos.

Para entender:

Responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos: conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, para minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados, bem como para reduzir os impactos causados à saúde humana e à qualidade ambiental decorrentes do ciclo de vida dos produtos, nos termos desta Lei.

logística reversa é o instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou, ainda, outra destinação.

Depois de 3 anos completos da publicação da lei, temos visto as empresas fabricantes preparando seu sistema logístico para atender as demandas de recolhimento, ainda bastante fraco diga-se de passagem, mas que com certeza será acelerado com a imposição da demanda causada pelas Instituições de saúde. Da mesma forma temos também empresas de logística reversa, ou recuperação de valor como também é chamada, que perceberam o mercado potencial e estão investindo pesado na criação de plantas de processamento de eletrônicos descartados, como é o caso da empresa Arrow que inaugurou em outubro ultimo mais uma unidade com capacidade para processar 20 mil ativos mensais em São Paulo. Ou seja já percebe-se uma movimentação por parte dos fornecedores para atendimento a politica dos RSS.

E o seu hospital, já definiu os procedimentos para o descarte rastreado? Já buscou os fornecedores para montar um plano de ação? Já definiu a politica de obsolescência?

O que isso quer dizer na pratica da Engenharia clínica?

No caso da Engenharia Clinica, a maior preocupação está no gerenciamento do descarte dos materiais, baterias, lâmpadas, partes e peças usadas e até mesmo equipamentos desativados, bem como qualquer material técnico gerado da atividade. Estes materiais não poderão mais serem descartados no lixo comum mas sim submetidos à engenharia reversa.

Como classificar?

Todos os materiais definidos pelo artigo 33  tem a obrigatoriedade de passar pelo processo de engenharia reversa. Os produtos do chamado Grupo D, conforme definição do Manual de Gerenciamento de RSS do Ministério da Saúde compreendem praticamente todos os resíduos gerados pelo Departamento de EC, seja na forma de peças defeituosas, cabos, materiais refugados e até mesmo equipamentos inteiros que chegam ao fim de sua vida util e esperam pela definição de um destino apropriado. Para melhor entendimento pela equipe de gerenciamento  interno  dos  RSS  no  estabelecimento de saúde, a classificação adotada deve ser aquela indicada pela Anvisa (RDC 306/2004). Entretanto, para licenciamento ambiental de aterros sanitários e outros tipos de resíduos sólidos, recomenda-se seguir as orientações dadas pela NBR 10.004 (ABNT, 2004), a qual normatiza a classificação dos resíduos sólidos quanto à periculosidade.

O plano

É de responsabilidade do EAS e a Engenharia Clinica se inclui nisso, o estabelecimento de um plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos conforme determinado na seção V e descrito no artigo 21, identificando as responsabilidades em cada etapa de gerenciamento, os tipos de resíduos, etc. Para elaborar o plano já existem diversas literaturas a respeito, mas é importante que seja seguido o Manual de Gerenciamento dos Resíduos dos Serviços de Saúde publicado pela ANVISA em2006 e que pode ser facilmente baixado pela internet.

O interessante vem no capitulo III artigo 30 da PNRS onde é definido o principio da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos de forma individualizada e encadeada aos fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes e consumidores, o que quer dizer que os fornecedores de produtos deverão ser envolvidos quando a questão for o descarte dos mesmos. Os Estabelecimentos de Saúde  deverão  efetuar  a  devolução  dos  resíduos  aos comerciantes ou aos distribuidores dos produtos e das embalagens. Os comerciantes e distribuidores deverão efetuar a devolução aos fabricantes ou aos importadores. Os  fabricantes  e  os  importadores  darão  destinação  ambientalmente  adequada  aos produtos e às embalagens reunidos ou devolvidos, sendo os rejeitos encaminhados para a disposição final ambientalmente adequada, na forma estabelecida pelo órgão competente do Sisnama e, se houver, pelo plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos.

No caso de equipamentos de porte, o artigo 33 deixa claro que a responsabilidade de recolhimento e toda a logística reversa são de responsabilidade  da cadeia fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes. Tornando os integrantes desta cadeia como corresponsáveis na destinação correta dos materiais, componentes e equipamentos na atividade chamada de logística reversa, onde basicamente serão recolhidos, desmontados, separados conforme seus materiais e preparados para reciclagem por meio de metodologia apropriada.

Portanto o Engenheiro Clinico, além de todas suas atribuições, deverá a partir de agora assumir mais esta atividade, estimulando sua instituição na elaboração do Plano de Ação, provocando seus colaboradores a refletir sobre a responsabilidade social da destinação dos resíduos e seu próprio papel de responsável na manutenção do meio-ambiente, não  esquecendo nunca da questão da rastreabilidade (A lei preve que o EAS deverá manter um registro atualizado sobre a destinação deste material, da mesma forma que a empresa que efetuou o recolhimento) e da atenção aos Planos Estaduais, Municipais e o da sua Instituição, juntamente com os instrumentos legais relativos aos resíduos do sistema da logística reversa nos seus respectivos Estados e Municípios.

Nos conte qual sua experiência dentro de sua instituição neste assunto. Os equipamentos já estão sendo recolhidos pelos distribuidores? Já está sendo elaborado um plano? Não deixe de nos escrever.

A ORGANIZAÇÃO DAS SANTAS CASAS DE MISERICORDIA

santa casa

Publicado em maio de 2016 na revista Hospitais Brasil

A história das Santas Casas sempre me fascinou, principalmente pela arquitetura antiga de algumas delas. Em algumas décadas de atividade que tenho exercido, tive oportunidade de frequentar diversas unidades da Santa Casa pelas cidades do Brasil. Nas minhas indas e vindas entre as paredes grossas seculares, corredores ladeados de colunas e estruturas portentosas, corria os prédios antigos com a cabeça nos desafios profissionais e os olhos na história aparente nos tijolos de cada ala que eu entrava.

Apesar da minha admiração, sempre tive também desconhecimento de particularidades quanto a administração e sustento das Irmandades, como muitos outros com os quais conversei a respeito. Confesso, ignorante que fui, que sempre pensei que as Irmandades estivessem de alguma forma ligada a Igreja católica em sua origem e financiamento. Depois de algumas gafes percebi que precisava pesquisar e me informar mais a respeito, e como toda jornada de conhecimento leva a descobertas incríveis, também tive as minhas sobre a História das Santas Casas no Brasil, e decidi dividir as poucas informações que consegui com os leitores deste meu blog.

As primeiras informações chamam a atenção, as Santas Casas somam mais de 2.100 hospitais, espalhados em todo o território nacional, responsáveis por quase cerca de 50% do número de leitos hospitalares existentes no país. São instituições particulares, laicas e filantrópicas, que em muitos municípios brasileiros garantem o serviço de saúde da população através de seus hospitais. Quando criada em Portugal foi a primeira legítima ONG do mundo, em um tempo em que seria impensável a existência de uma instituição social que se declarasse leiga e não governamental. Da época de sua fundação em Portugal até a metade do século XVIII, a Santa Casa foi dirigida por pessoas situadas nos altos escalões do governo e cresceu com ajuda de doações e pelo prestígio que a Santa Casa ganhava com o desenvolvimento econômico da colônia. Era uma instituição fechada, pois só faziam parte os representantes da elite local ou aqueles que tinham alcançado uma posição privilegiada na sociedade colonial

No Brasil o título de primeiro Hospital da Santa Casa divide a opinião de alguns historiadores entre São Paulo e Olinda, e eu decidi acompanhar os relatos do historiador Francisco Pereira da Costa reconhecendo na cidade de Olinda a primeira Irmandade da Santa Casa, construída em 1539 e seguida pela Santa Casa de Santos em 1543 ainda com o nome de Hospital de Todos os Santos, nome que depois deu origem a vila e a Cidade de Santos.

As dez primeiras instituições que foram criadas no Brasil são:

1539 – Santa Casa de Misericórdia de Olinda (PE)

1543 – Santa Casa da Misericórdia de Santos (SP)

1549 – Santa Casa de Misericórdia de Salvador (BA)

1582 – Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (RJ)

1551 – Santa Casa de Misericórdia de Vitória (ES)

1599 – Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (SP)

1602 – Santa Casa de Misericórdia de João Pessoa (PB)

1619 – Santa Casa de Misericórdia de Belém (PA)

1657 – Santa Casa de Misericórdia de São Luís (MA)

1792 – Santa Casa de Misericórdia de Campos (RJ)

 

Quando criadas no Brasil tinham como objetivo atender à população carente, cuidando dos enfermos em seus hospitais, alimentando os famintos, sepultando os mortos, educando os enjeitados em seus orfanatos e acolhendo os recém-nascidos abandonados na Roda dos Expostos. A fonte de renda vinha inicialmente das doações e esmolas. A partir do século XIX essas entraram em decadência e outras surgiram: festas filantrópicas, recursos de loterias, convênios e subvenções estatais. Ao mesmo tempo, as ações voltadas para a assistência médica foram crescendo em detrimento das demais atividades, ou seja, durante o Império, as Santas Casas acompanharam algumas mudanças da sociedade e o foco passou a ser o cuidado com os enfermos e amparo à infância desvalida. Foi uma resposta ao cenário epidemiológico criado pelas epidemias do século XIX, que resultou no aumento de órfãos, mendigos e doentes.

Infelizmente em julho de 2014 o fechamento do pronto socorro da Santa Casa de São Paulo revelou a situação dramática que esta e outras instituições de caridade enfrentam atualmente por conta de desmandos políticos, ingerência financeira, corrupção. Uma imagem do cenário caótico da administração da saúde brasileira. A história continua sendo escrita, mas desta vez sem a beleza arquitetônica ou o ideal da caridade.

ENGENHARIA DE USABILIDADE NA PRÁTICA

Publicado em março de 2016 na revista hospitais Brasil

Nos Estados Unidos cerca de 195.000 pessoas morrem todos os anos vitimas de erros médicos potencialmente evitáveis. O FDA recebe via o CDRH mais de 100.000 relatórios de incidentes com equipamentos clínicos por ano sendo praticamente um terço deles relacionados com o erro de utilização segundo dados apresentados pela Association for the Advancement of Medical Instrumentation (AAMI) em uma conferencia em Washington no ano de 2005. Já no Brasil, apesar de todos os esforços da ANVISA, os incidentes com produtos para a saúde são sub-relatados, mas sabemos que 73,3% dos erros médicos poderiam ser evitados, segundo estudos da FIOCRUZ apresentados em julho deste ano. Todos estes números não conseguem expressar exatamente o quanto dos erros estão associados à dificuldade de utilização dos chamados produtos para a saúde, mas com certeza mostram que ações precisam ser tomadas no sentido de se buscar mais segurança ao paciente. Tanto mais quanto mais avança a tecnologia. Walter Mendes, pesquisador da Fiocruz, quando entrevistado a respeito do resultado da pesquisa disse sabiamente “A questão é adotar mecanismos que impeçam que o erro chegue ao doente”, e entre estes mecanismos está a Engenharia de Usabilidade (EU)que é um processo que procura desenvolver produtos, softwares e sistemas que atendam as necessidades, capacidades e limitações dos usuários, ao invés de esperar que estes se adaptem ao desenho do produto.  A EU é um processo que funciona junto com o gerenciamento de risco buscando reduzir o erro de operação, induzido pela própria tecnologia, a um limite aceitável.

A Engenharia de Usabilidade, também conhecida como Engenharia de Fatores Humanos, teve origem na indústria aeronáutica e vem evoluindo na área médica nos últimos anos. É um processo que tem inicio na concepção do produto e só termina com o descarte do mesmo, passando por todas as fazes de desenvolvimento, rotulagem, distribuição e utilização. Tem como foco principal a segurança do produto e procura entender o profissional e os fatores do meio que podem ter alguma influencia no aumento do risco de operação.

Anualmente o Instituto ECRI americano publica ao final do ano uma lista com os 10 maiores perigos na tecnologia médica, identificando aquelas que estarão em evidencia durante o ano seguinte nos estudos relacionados com a segurança do paciente, ou seja aquilo que tem chamado a atenção dos especialistas por apresentar de fato risco de utilização. Interessante observar que da lista de 10 itens, pelo menos 7 estão relacionados com o uso da tecnologia em si, ou melhor com o erro na utilização.  O erro de utilização acontece quando existem  problemas de interação entre o ser humano e a maquina, não necessariamente por falta de instrução mas muito mais pela relação entre o desenho do produto, a condição ambiental em que as pessoas estão inseridas e a condição psíquica no momento desta interação. Um caso típico são os alarmes incorporados massivamente na tecnologia nos últimos anos que, apontados pelo ECRI como numero 1 em sua lista, tem sido um fator negativo no ambiente clinico e motivo de stress da equipe de enfermagem por conta da quantidade deles acionados simultaneamente e até mesmo da tonalidade sonora utilizada, aumentando o nível de desatenção e consequentemente da probabilidade do erro.

Mas o impacto da implantação de um processo de EU não recai somente sobre a segurança do produto. Segundo um estudo de Michael Wiklund, especialista americano em Human Factors, o ROI (Retorno sobre um investimento) pode chegar a 10:1 sobre cada dólar investido em Engenharia de Usabilidade[1], trazendo ao produto desenvolvido por este processo, as seguintes vantagens adicionais:

– Menor número de erros de utilização

– Menos retornos de projeto

– Reduz o risco associado ao produto e portanto menor incidência de litígios

– Menor custo em treinamento e educação continuada

– Menor custo de suporte e assistência

 

Na prática um produto desenvolvido por meio das técnicas de Engenharia de Usabilidade deve passar pelo menos pelos seguintes passos:

– Determinação da aplicação do produto

– Identificação das funções frequentemente utilizadas

– Identificação dos perigos e das situações perigosas relacionadas a usabilidade

– Identificar as funções de operação primaria

– Desenvolver as especificações de usabilidade

– Preparar um plano de validação

– Desenvolver a interface do usuário

– Validar a usabilidade do produto

 

No Brasil estamos ainda engatinhando neste tema. A primeira norma publicada pela ABNT exclusivamente voltada à Engenharia de Usabilidade para o produtos para a saúde foi a “NBR IEC 62366 : 2010 Aplicação da engenharia de usabilidade a produtos para a saúde” publicada em maio de 2010. Hoje outras normas estão sendo produzidas e deverão ser publicadas em breve. Alguns programas de incentivo tem nos permitido participar nas reuniões da IEC – International Eletrotechnical Commission no exterior ,na produção destas normas junto aos maiores especialistas de Human Factors do mundo, o que deve fomentar em médio prazo a criação de know how nacional em processos de Engenharia de Usabilidade.

 

[1] Michael Wiklund, “Return on Investment in Human Factors,” Medical Device & Diagnostic Industry 27, no. 8 (2005): 48–55.

JOGOS DE RACIOCINIO NO COMPUTADOR MELHORAM A COGNIÇÃO EM PACIENTES PORTADORES DE ESCLEROSE MULTIPLA

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Traduzido da reportagem de Lauren Dubinsky , Reporter

 

As pessoas são geralmente desmotivadas a jogar videogames porque as atividades ao ar livre são mais saudáveis, mas uma nova pesquisa mostrou que os “brain-games”  ou jogos de raciocínio por computador podem ser benéficos para pacientes com esclerose múltipla.

 

O estudo, publicado na revista Radiology, mostrou que os videogames melhoram algumas das habilidades cognitivas de pacientes com esclerose múltipla. Eles fortalecem as conexões neurais na parte do cérebro chamada tálamo, que funciona como o centro de informações.

Para o estudo, os pesquisadores do departamento de neurologia e psiquiatria da  Sapienza University em Roma utilizaram uma coletânea de videogames da Nintendo Corporation chamado Dr. Kawashima Brain Training. Os jogos incluem quebra-cabeças, jogos da memória e outros desafios mentais.
Os pesquisadores designaram aleatoriamente 24 pacientes com esclerose múltipla com comprometimento cognitivo, para fazerem parte de um programa de reabilitação de oito semanas que envolveu sessões de jogos de 30 minutos, cinco dias por semana, ou para serem colocados em uma lista de espera e servirem como grupo de controle.

Após as oito semanas, ambos os grupos foram avaliados com testes cognitivos e ressonância magnética funcional de 3T em estado de repouso. A Ressonância magnética Funcional permitiu aos pesquisadores estudar quais regiões do cérebro eram ativadas simultaneamente e deu informações sobre a participação de certas áreas com circuitos específicos do cérebro.

Eles descobriram que os 12 pacientes que faziam parte do grupo de videogames experimentaram um aumento dramático na conectividade funcional do tálamo em áreas do cérebro que estão envolvidos na cognição.

Os resultados deste estudo fornecem um exemplo da capacidade do cérebro para formar novas conexões ao longo da vida. Videogames podem alterar o modo de funcionamento de certas estruturas cerebrais.

“Isto significa que mesmo uma ferramenta genérica e de uso comum como os videogames pode promover a plasticidade do cérebro e pode ajudar na reabilitação cognitiva para pessoas com doenças neurológicas, como a esclerose múltipla,” disse em uma declaração a Dra Laura De Giglio, principal autora do estudo.

De agora em diante, os pesquisadores esperam estudar se a plasticidade induzida por videogames em pacientes com esclerose múltipla também está ligada a uma melhoria em outros aspectos de suas vidas. Eles também planejam estudar a forma como os jogos de vídeo podem ser incorporadas em programas de reabilitação.

A NOVA ORDEM NO MERCADO DE CALIBRAÇÃO DE EQUIPAMENTOS CLINICOS

 Publicado em abril de 2012 no site Saúde Business

A atividade de calibração dos equipamentos clínicos tem sido intensa nos últimos anos por conta das ações regulatórias e de entidades como a ONA, no intuito de melhorar a confiabilidade dos aparatos utilizados no diagnóstico e no tratamento de pacientes. A iniciativa privada, por sua vez, reagiu imediatamente e vem aumentando a oferta de serviços, competindo por espaço no mercado e os tomadores de serviço, ou seja, aqueles que deveriam impor as regras do mercado, não tem reagido na mesma velocidade. Por conta disso temos observado a queda na qualidade dos serviços de calibração pela falta de controle dos operadores.

INTRODUÇÃO

Quem observa o mercado da saúde, especificamente os serviços de engenharia pôde notar com bastante clareza que, desde meados de 2003 os preços médios dos serviços de calibração tem apresentado um movimento de queda acentuado a tal ponto de ficar difícil tanto para os tomadores de serviço como para os prestadores, de se estabelecer um referencial de preços. Em 2002 um certificado de calibração para um ventilador pulmonar (independente de marca) era oferecido em torno de 500,00 a 750,00, e eram poucas as empresas que se declaravam qualificadas para o serviço. Hoje, nove anos depois, é fácil encontrar empresas que cobram em torno de 80,00 ou até menos para os mesmos ventiladores, e dezenas de empresas que oferecem o serviço, ou seja, uma taxa de queda de 22% ao ano . Qual foi a causa e como o mercado tem reagido a esse reajuste negativo?

O QUE MOTIVOU A BAIXA?

Em uma realidade em que a inflação do setor de serviços nos últimos 5 anos tem estado na faixa de 5,8%[1] ao ano, por conta de um crescimento do PIB médio de 4,6%[2] no mesmo período, o que explica essa queda de preços contrariando a tendência do mercado de serviços? Sabemos que os preços praticados sempre refletem a capacidade de atendimento frente a demanda, e portanto, refletem o mercado.  E se o mercado tem demonstrado crescimento, porque os preços têm apresentado movimento contrario? Ou seja, o que percebemos não é simplesmente uma reação matemática ao movimento natural do mercado mas sim a presença de outro fator determinante mais forte que a busca das instituições por um serviço de qualidade. Para entender esse fenômeno temos que analisar o mercado, o que consiste basicamente em analisar os dois lados, o da demanda e o da oferta.

Durante a era Lula a economia brasileira teve um considerável crescimento, atingindo patamares de 6 %[3] ao ano nos seus melhores dias, frente aos 2,7% ainda no governo anterior, o que não quer dizer muita coisa porque se tratou também de um reflexo do crescimento mundial. Também houve um considerável aumento na carga tributária injetando 5,6 bi[4] a mais por ano no setor publico da saúde desde 2005, e assim tanto o setor privado quanto o setor público foram beneficiados com as políticas financeira e tributária dos últimos anos. Ponto positivo para a demanda.

Outro fator importante a considerar pelo lado da demanda foi o fortalecimento das políticas regulatórias e programas de gestão da qualidade. O surgimento da ANVISA em janeiro de 99 e a publicação das RDC’s foram um incentivo muito forte para as políticas da qualidade que já vinham se instalando (ONA, CQH, JCAHO, ISO 9000, etc) e trouxeram consigo o tema da calibração, que até então era uma novidade para as instituições de saúde e seus Engenheiros Clínicos. Estes tinham pouco conhecimento do tema naquela época.

Desta forma estava montado o cenário para o crefig 1scimento da demanda por serviços, pela injeção de dinheiro público e pelas novas exigências regulatórias e da qualidade. Mas então, se a demanda cresceu de forma tão acelerada e não haviam os prestadores de serviço para atendê-la, o que fez com que o preço do serviço não disparasse junto? Essa sim seria a reação natural. Obviamente, de olho no que estava acontecendo e, percebendo a oportunidade, um grande número de empresas se lançou (e ainda vem se lançando) no mercado oferecendo os serviços de calibração. Eram empresas que migraram dos serviços de manutenção, de engenharia clinica e até das representações comerciais para aproveitar um momento de abertura. Não eram tradicionalmente da área de metrologia, de forma que não tinham a estrutura adequada e nem profissionais especializados e, a calibração que estavam oferecendo, muito longe do tecnicamente ideal, estava sendo aceita pelo mercado. Na falta de qualificação a única forma de conquistar market share foi oferecendo menor preço, resultando numa curiosa reação contraria ao que parecia ser a tendência natural de valorização, e este sim foi o fator determinante pelo lado da oferta que levou ao barateamento do mercado de calibração.

Entendendo então o que aconteceu, o mercado respondeu a alta do consumo com aumento de oferta, e o tomador de serviços não foi seletivo na escolha do fornecedor, recusando os prestadores desqualificados. A falta da prática de qualificação de fornecedor, por despreparo ou mesmo por força econômica, permitiu o estabelecimento de serviços de baixa qualidade.

REFLEXOS NO MERCADO

Mas afinal, o que significa tudo isso então como atividade comercial? O ambiente competitivo com a conseqüente redução de preços permitiu que os hospitais pudessem implementar programas de calibração de forma mais ampla, ampliando os cuidados com os equipamentos com acompanhamento metrológico regular e criterioso. Algo impensável no inicio de 2000 para a maioria dos hospitais, que não encontravam respaldo legal para justificar a contratação deste tipo de serviço.

Da mesma forma que a guerra de preços entre operadoras de saúde popularizou o acesso a rede privada de Hospitais entre a classe média de uma forma geral, os hospitais foram beneficiados com essa nova realidade. Obviamente a guerra de preços, de uma forma ou de outra, é acompanhada por queda da qualidade, como tem acontecido nos dois casos, nas operadoras de saúde e nas empresas prestadoras de serviços de calibração, reforçando para os Engenheiros Clínicos a necessidade de se trabalhar com a qualificação de fornecedores, de se avaliar de forma critica os certificados e os resultados das calibrações e de incorporar em seu arcabouço de conhecimentos mais esta disciplina e todos os seus melindres.

O setor ainda está em crescimento. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) o Brasil foi considerado o segundo maior mercado de saúde privada do mundo, e recentemente fomos apontados como a 6ª economia no mundo de acordo com dados do Centro de Economia e Pesquisa de Negócios (CEBR), o que significa que “a coisa” ainda vai esquentar bastante. O que precisamos pensar é como regular esta atividade, melhorando a qualidade dos serviços de calibração e mantendo o mesmo patamar de preços, é importante que cada vez mais os gestores de Engenharia adotem esta pratica como parte da rotina, elevando o padrão de qualidade no cuidado com os equipamentos.

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COMO REGULAR

Se é fato que a regulamentação compulsória aplicada por agencias governamentais trariam, junto com os benefícios, efeitos colaterais indesejáveis (O que é obrigatório generaliza uma necessidade particular que nem sempre se aplica em todos os casos criando um problema ao invés de uma solução), então a melhor regulação aconteceria pelos tomadores de serviço que, neste caso, são os Engenheiros Clínicos, ou os gestores da tecnologia qualquer que seja sua formação ou nome de cargo, avaliando criticamente a qualidade do serviço prestado versus o preço e contratando mediante especificações e tolerâncias definidas nos processos clínicos, e desta forma rejeitando as empresas despreparadas ou mau intencionadas. Somente por meio da atuação consciente e preparada dos gestores poderá acontecer naturalmente o equilíbrio entre a oferta e a demanda sem interferências governamentais. Equilíbrio natural é o que  pregava o economista Adam Smith nas primeiras décadas de 1700.

A minha preocupação está na figura dos gestores. É da mão deles que este equilíbrio será encontrado. Será que temos Engenheiros Clínicos suficientemente preparados para conduzir uma seleção de prestadores de serviço em um mercado crescente e altamente competitivo sem que se perca o foco do que é necessário metrologicamente? Como anda a disciplina de metrologia nos cursos de Engenharia Clinica que tem se proliferado Brasil afora? Quanto vale este serviço para o Hospital? E para o Engenheiro Clinico?

Tenho observado nos hospitais pelo país como são jovens os profissionais que estão liderando as equipes de Engenharia. Os grandes hospitais, por exemplo, já tem alcançado a excelência na gestão de EC, e muitos estão bem preparados neste tema, mas eles representam apenas 2% dos estabelecimentos do país, enquanto nos restantes 98% eu tenho presenciado situações preocupantes de profissionais muito aquém do que seria tolerável na condução de um programa de calibração, contratando pelo menor preço absoluto (como se fossem instituições públicas) deixando de lado os valores representativos de empresas qualificadas, colocando por terra nossa discussão por uma regulação natural do mercado.

 inflação

CONCLUSÃO

O papel da calibração é tornar conhecido o erro inerente e conseqüentemente a incerteza da medição de um instrumento no momento de sua utilização para que seja levado em consideração no processo clinico do Hospital quando, por exemplo, da monitoração dos parâmetros fisiológicos, ou da manutenção da temperatura de incubadoras ou do volume de medicamento infundido durante tratamento, ou qualquer que seja o processo em que o erro associado ao mensurando tenha influencia direta na efetividade do tratamento/diagnóstico, e também que as devidas correções sejam adotadas segundo o resultado obtido, ou seja, a calibração não é uma atividade demandada pela Engenharia como alguns a consideram. Na verdade é uma atividade controlada pela Engenharia mas demandada pelo corpo clinico.

O Engenheiro Clinico por sua vez tem, no universo metrológico, a missão de promover a adequação dos resultados da calibração com as demandas do processo clinico de tratamento/diagnóstico, e no universo mercadológico avaliar criticamente os fornecedores contratados no que concerne a qualidade do serviço prestado, e o valor destes serviços.

A guerra de preços que tem tomado conta do mercado pelo excesso de liberdade na concorrência tem comprometido substancialmente a qualidade oferecida dos serviços e deve ser combatida. Como tomador de serviço, o Engenheiro Clinico representa hoje a grande força potencial na mudança deste cenário, por mais que ele desconheça essa realidade. Estamos vivendo o momento da convergência, encarando de frente a decisão entre estabelecer uma nova ordem no mercado ou seguir neste processo autodestrutivo. Qual será a opção que vamos escolher?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1  “The 2011 Report on Calibration Services: World Market Segmentation by City “ – Professor Philip M. Parker, PhD

2 – “Global Calibration Services Market“, June 2012 – Robert Liley

3 – “Estudo da oferta e demanda por serviços laboratoriais de ensaios e  calibração – ODSLEC”,  INMETRO – 2009

[1] Fonte: IBGE, Ipea
[2] Fonte: Banco Central
[3] Fonte: Banco Central, IBGE
[4] Fonte: IBGE e Ministério da Fazenda