CRITÉRIOS PARA O PLANEJAMENTO DAS MANUTENÇÕES – Parte 3/3 – O método de Schumacher

Mauricio Castagna abril/2018

Este artigo é o terceiro de uma serie de 3 onde discorro sobre a criação de critérios para o planejamento das manutenções, de modo a habilitar o leitor a criar sua agenda de manutenção levando em consideração todas as intervenções técnicas previstas nos equipamentos do hospital, com critérios claros que podem ser discutidos e validados pelas equipes multiprofissionais da qualidade de sua Instituição (O que, aliás, é absolutamente necessário).

Na primeira parte apresentei uma forma de classificar as tecnologias pela criticidade utilizando 5 parâmetros que traduzem as estratégias de negócios do Estabelecimento e associando cada um pela matriz decisória para resultar na classificação. Se quiser ler este primeiro artigo, ele pode ser acessado na minha página clicando aqui.

Já na parte 2 utilizei a classificação de criticidade para determinar a forma de abordagem e a periodicidade em cada tipo de intervenção técnica. Este artigo já permite montar um planejamento com abrangência anual de todo o parque tecnológico com bastante propriedade, e pode ser acessado pelo leitor clicando neste link.

Neste terceiro e último artigo mostrarei como aplicar o método de Schumacher de forma simplificada para avaliar sempre os resultados do certificado de calibração e alterar a periodicidade conforme os resultados. O método em si é bem mais complexo, mas a leitura irá proporcionar uma ideia bem clara do como ele se baseia, o que dará matéria suficiente para aumentar seu poder decisório sobre o tema. Vamos então seguir com o artigo.

 

MÉTODO SIMPLIFICADO DE SCHUMACHER PARA DETERMINAÇÃO DA FREQUÊNCIA DE CALIBRAÇÃO

 

PROCEDIMENTO

O método leva em consideração o estado de conservação e funcionamento do equipamento no momento da calibração, entendendo que quanto mais degradada forem as condições, maior a probabilidade de se constatar instabilidade dos parâmetros sujeitos a calibração ao longo do uso e, portanto, menor deve ser o tempo discorrido entre uma calibração e outra.

Vamos começar estabelecendo uma nota de avaliação para o estado físico, de forma simples, mas com critérios. Esta condição é indicada por letras conforme segue:

– Indica que o equipamento está com avaria impedindo o seu funcionamento.

F – Indica que o equipamento funciona, porém, fora das tolerâncias estabelecidas.

C – Indica que o equipamento funciona dentro das tolerâncias estabelecidas.

 

Com base na condição de recebimento do equipamento e nas duas ou três calibrações anteriores, determinamos por meio da tabela 1, qual a decisão que deve ser tomada, ou seja, avaliamos nos dois ou três últimos certificados o erro médio do mensurando em todas as faixas de medição e as condições de CONFORME (C), ou NÃO CONFORME (F) devem ser observadas, e com base na sequência dos últimos certificados mais a medição no certificado atual tomamos a decisão com base na tabela 1. Esta decisão é indicada por letras, conforme segue:

D – Indica que o período deve diminuir em 50%;

E – Indica que o período deve aumentar em 50%;

P – Indica caso duvidoso, e o período não deve ser alterado;

M – Indica que a redução do período deve ser a máxima possível.

 Por exemplo, se o equipamento esteve conforme nas três ultimas calibrações será indicado como CCC, e se, no certificado atual tambem está conforme, então conforme a tabela o período para uma nova calibração pode ser aumentado, o que está indicado pela letra E.

TABELA 1 – DECISÃO A SER TOMADA 

 

Condição nos Períodos Anteriores 2. Estado no Recebimento 

A

F

C

CCC

P D E
FCC P D

P

ACC

P D E
CF M M

P

CA

M M

P

FC

P M P
FF M M

P

FA

M M

P

AC

P D

P

AF

M M P
AA M M

P

 

Partindo de uma periodicidade inicial de 12 meses para a calibração, segundo o resultado observado pelo método de Schumacher, eles devem se esticar ou encolher, de acordo com a tabela acima, e os novos períodos sugeridos ficariam da seguinte forma:

 

     TABELA 2 – NOVOS PERÍODOS DE CALIBRAÇÃO 

 

Período Novo Período de Calibração (meses)
Atual

D

E P

M

12 meses

6

18 12

3

Você pode dizer que todos os equipamentos em uso consta nos seus certificados que estão todos conformes, e deste modo nunca haverá a necessidade de alteração da periodicidade, mas vale lembrar que rigorosamente, quando se contrata uma empresa de metrologia, devemos aceitar que alguns dos certificados serão emitidos como NÃO CONFORMES e, somente após submeter o equipamento a uma manutenção corretiva para ajuste dos parâmetros, deveríamos novamente emitir um novo certificado de calibração para garantir a condição ideal de trabalho e retornar o equipamento ao uso com segurança. Estes dois certificados são identificados como pré e pós-calibração e, naturalmente, devemos considerar o primeiro na avaliação para o método de Schumacher

Lembrando também que uma manutenção sofrida pelo equipamento que tenha influência direta no parâmetro sob controle, indicaria a necessidade de uma nova calibração, independente do prazo que tenha decorrido da emissão do último certificado.

 

BIBLIOGRAFIA

 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, NBR 17025: Requisitos gerais para competência de laboratórios de ensaio e calibração. Rio de Janeiro. 2005.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR ISO 10012: Sistemas de gestão de medição – requisitos para os processos de medição e equipamentos de medição. Rio de Janeiro. 2004.

CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino. Metodologia Científica. 3 ed. São Paulo: McGrawHill do Brasil, 1983.

DUNHAM, Paulo Cezar da Costa Lino; MACHADO, Marcio, Método de alteração de intervalos entre calibrações, Rede Metrológica de São Paulo, ENQUALAB-2008, São Paulo, 2008.

FLUKE CORPORATION. Calibration: Philosophy in Practice. 2. ed. Everett, WA: Fluke Corporation, Everett, Wa, U.S.A ,1994. p. 528. NETO, João Cirilo da Silva. Metrologia e controle dimensional: conceitos, normas e aplicações. Elsevier Brasil, 2012.

NOVASKI, Olívio; FRANCO, Samuel Mendes Comparação entre Métodos para Estabelecimento e Ajuste de Intervalos de Calibração. Sociedade Brasileira de Metrologia – Metrologia 2000 – São Paulo.

OLIVEIRA, F. Análise do Sistema de Medição (ASM), Revista Metrologia & Instrumentação. São Paulo, nº24. p 66, 69, Set.2003.

REDE DE METROLOGIA E ENSAIOS DO RIO GRANDE DO SUL (RMRS). Metrologia: A base física da qualidade. Rede Metrológica do Rio Grande do Sul, 2003. SARAIVA, C. P., Ferramentas para ajustar a periodicidade de calibração,

Rede Metrológica de São Paulo, ENQUALAB – 2005, São Paulo, 2005. VIM – Vocabulário Internacional de Metrologia. Conceitos Fundamentais e Gerais e Termos Associados, 2a. ed. Luso – Brasileira; Rio de Janeiro: 2012.

PORTELA, Ajuste da Frequência de Calibração de Instrumentos de Processo – Foco 5 na Indústria Farmacêutica, In Metrologia 2003 – Metrologia para a Vida, Recife, 2003.

CRITÉRIOS PARA O PLANEJAMENTO DAS MANUTENÇÕES – Parte 1/3

plano

Mauricio Castagna jan/2018

Trabalhei como Engenheiro Clinico em um hospital tradicional em São Paulo voltado a cirurgias e, quando assumi ainda havia muito trabalho por fazer. Já existia uma EC mas as rotinas não estavam bem definidas, ainda não existia o manual da qualidade com seus POPs , normas e formulários, e uma das tarefas que me cabia seria escrever todos os procedimentos que seriam a base para a coordenação do Departamento. 

Quando atingi o ponto de descrever os critérios para a definição de criticidade dos equipamentos me esbarrei mais uma vez no método de Fennigkoh & Smith, publicado em 1991 e utilizado largamente por grande parte dos Engenheiros Clínicos e até mesmo pela Organização Mundial de Saúde que fez uma adaptação ao texto original. Eu mesmo utilizei este método em vários hospitais, e poucas vezes encontrei alguma coisa realmente diferente nesta área, o que sempre me deixou desconfortável, não pelo fato de ser o método ruim, muito pelo contrário, mas pela falta de opção. 

Quanto ao mérito deste método, com todo o respeito ao Dr Larry Fennigkoh que no ano passado entrou para o Hall of Fame da ACCE, sempre percebi que a classificação em alguns equipamentos não batia com a realidade da instituição. Isso porque sendo o Hospital público, privado, instituição de caridade, clínica particular, muda o entendimento do que é prioritário, ainda que o foco seja a segurança, como por exemplo a interrupção no faturamento, que pode ser extremamente crítico no mundo da saúde capitalista. 

Pensando nisso, estudei um outro método que é usado na indústria e que com alguma adaptação consegui adequar ao nosso hospital e percebi que o resultado atendeu em muito a nossa expectativa. Também percebi que esta versão permite com facilidade atender aos anseios de Hospitais de diferentes formações sócio/administrativas, como por exemplo, ser mais direcionado para a saúde social, com pouca modificação. 

Na breve explicação que vou expor adiante, quero mostrar como funciona o critério para classificação de criticidade, bem como a forma de se utilizar esta classificação para priorização e coordenação dos principais tipos de intervenção técnica. Essas são ferramentas decisórias muito importantes na rotina de um Departamento técnico, além de atender as exigências da ONA. Como ilustração vou também mostrar alguns exemplos de como ficaram classificados os equipamentos mais relevantes no processo produtivo do hospital. 

 O MÉTODO 

 São vários os tipos de intervenção técnica coordenadas pela Engenharia Clinica durante um período de atividade produtiva. O perfil do hospital e o perfil do parque tecnológico determinam qual destas intervenções deverá ser feita e com qual intensidade. Os recursos humanos e financeiros do Setor de Engenharia Clinica também serão determinantes no planejamento da matriz de intervenções, pois afinal nem tudo o que aprendemos na academia é possível de ser implementado se não temos todas as ferramentas. Quanto mais os recursos forem incompatíveis com as demandas, maior será a necessidade de utilizar critérios para a execução dos trabalhos de forma organizada e eficaz. Quando vários chamados são feitos ao mesmo tempo e não temos pessoal suficiente, qual atendemos primeiro? Quando queremos calibrar todos os equipamentos mas o orçamento não permite, quais serão os eleitos? 

 Antes de mais nada vamos entender quais são as intervenções técnicas mais comuns ao ambiente hospitalar com relação aos dispositivos médicos: 

 - Ronda: Inspeção rotineira visual rápida em um grupo de equipamentos de um ou mais Setores seguindo uma rotina escrita para verificar condições mínimas de funcionamento. Sempre com anuência do profissional responsável do Setor. Pode ser determinada pelo período do dia (sempre no início da manhã), ou pela mudança de paciente (terminal em um quarto de internação, ou sala cirúrgica), ou pela troca de plantão da equipe assistencial, etc. 

 – Manutenção corretiva: Combinação de meios técnicos e administrativos para manter ou restabelecer as condições de funcionamento de um bem (IEC 62353:2014 ). Resulta de uma parada não programada, e normalmente é a atividade que mais consome horas de trabalho neste Setor. 

 – Manutenção preventiva: Ação que verifica e corrige pontos de desgaste, ou condições especificas que possam evoluir para uma parada de funcionamento. Essa é a antecipação a uma parada indesejada. Essa é a responsável pelo planejamento mais volumoso e as vezes o maior orçamento anual. 

 – Calibração: Operação que estabelece uma relação entre os valores e as incertezas de medição fornecidos por padrões e as indicações correspondentes com as incertezas associadas.  Adaptado do VIM_2012 (INMETRO).  

 Qualificação da instalação: Evidência documentada, fornecida pelo fabricante ou distribuidor, de que o equipamento foi entregue e instalado de acordo com as suas especificações. (ANVISA – RDC 15/2012). 

 Qualificação de operação: Evidência documentada, fornecida pelo fabricante ou distribuidor, de que o equipamento, após a qualificação da instalação, opera dentro dos parâmetros originais de fabricação. (ANVISA – RDC 15/2012). 

 Qualificação de desempenho: Evidência documentada de que o equipamento, após as qualificações de instalação e operação, apresenta desempenho consistente por no mínimo 03 ciclos sucessivos do processo, com parâmetros idênticos. (ANVISA – RDC 15/2012). 

 – Teste de segurança Elétrica: Série de ensaios previstos na norma IEC 62353:2014 – Medical electrical equipment – Recurrent test and test after repair of medical electrical equipment  que atestam quanto ao funcionamento do sistema de proteção quanto a choque elétrico. 

– Verificação: Ação de metrologia legal realizada pelo INMETRO anualmente para medição de erro e incerteza de medição conforme portaria INMETRO nº 153/2005 e Norma NIE-DIMEL-006. Ação legal e portanto obrigatória mas que muitas vezes é negligenciada pelos Hospitais. 

 – Teste hidrostático: Ensaio para verificação de pressão máxima de trabalho permitida (PMTP) do vaso de pressão. São feitos os ensaios seguindo a Norma Regulamentadora 13, ou NR-13, que dita os regulamentos pertinentes a operação com segurança dos vasos de pressão. Também é uma ação legal e tambem obrigatória. 

 GLOSSÁRIO 

 VIM – Vocabulário Internacional de Metrologia 

INMETRO – Instituto Nacional de Metrologia 

ANVISA – Agencia Nacional de Vigilância Sanitária 

RDC – Resolução da Diretoria Colegiada 

NIE – Norma Inmetro Específica 

DIMEL – Diretoria de Metrologia Legal 

IEC – International Electrotechnical Comission 

SLA – Service Level Agreemente (Acordo de Nível de Serviço) 

Duty Cicle – Ciclo de trabalho 

 

A execução de qualquer tipo de atividade técnica que interfira no funcionamento do equipamento requer planejamento e tomada de decisão, mesmo quando se trata de um atendimento de urgência. O que fazer, quando, quantas vezes e em qual equipamento? A resposta destas questões depende de decisões que devem se basear em um sistema de critérios previamente estabelecidos para que as prioridades sejam respeitadas e os riscos minimizados. Não podemos deixar para decidir qual a melhor forma de agir no ápice de uma crise. Mesmo crises são previsíveis e a metodologia tem que ser definida antes e executada quando necessário. Como quando acontece um incêndio, ninguém quer, mas quando acontece os bombeiros já sabem exatamente o que fazer. É assim que tem que ser no ambiente hospitalar. 

Neste método serão formados os critérios para tomada de decisão em cada um dos tipos de intervenção técnica partindo da determinação do índice de criticidade que será utilizado de forma combinada com outros índices.  

 – Estabelecimento de um Índice de criticidade  

 Para estabelecer a Criticidade dos equipamentos adotamos 5 parâmetros que traduzem as principais estratégias de negócio da instituição colocadas de forma decrescente pela sua importância e montamos um sistema de matriz definindo 3 níveis para cada parâmetro, a saber: Nível 1, Nível 2 e Nível 3. Estes níveis estabelecem o grau de comprometimento da operação ligada a este equipamento no caso de uma falha do mesmo, sendo o nível 1 o maior comprometimento e 3 o menor, lembrando que a falha a ser considerada é apenas uma e aquela em que interrompa o funcionamento do equipamento de uma forma geral. 

 

A tabela a seguir mostra a matriz de comprometimento.  

 

Parâmetro  Nível 1  Nível 2  Nível 3 
Segurança 

Efeito de uma única falha do equipamento quanto a riscos potenciais para pacientes, usuários e patrimônio 

A falha no equipamento acarreta em risco de lesões graves ou até mesmo morte para o paciente e/ou usuário ou até mesmo danos ao patrimônio do hospital  Uma falha no equipamento acarreta riscos moderado de danos ou erro de diagnóstico/terapia   Os riscos para o paciente ou o operador em decorrência de uma falha são aceitáveis. 
Confiabilidade 

Efeito da falha do equipamento sobre a continuidade e confiabilidade das atividades do hospital 

Uma falha no equipamento pode provocar a interrupção total no processo produtivo ou no procedimento cirúrgico  Uma falha atrapalha a continuidade de um procedimento cirúrgico ou um processo  Uma falha não causa problemas nos processos assistenciais 
Custo 

Custos envolvidos na manutenção (mão de obra – peças – locação – etc) 

O custo de reparo é de R$ 10.000,00 ou mais  O custo de reparo fica entre R$ 3.000,00 e R$ 10.000,00  O custo de reparo é inferior a R$ 3.000,00 
Disponibilidade 

Quantidade de unidades similares disponíveis para reposição 

É equipamento único para a sua atividade no hospital   Existem de 1 a 3 equipamentos similares operacionais  Existem 3 ou mais equipamentos similares operacionais no hospital. 
Freqüência 

Número de paradas por quebra,  por período de utilização. 

Muitas falhas causando indisponibilidade durante o período. 

(3 ou mais por ano) 

Poucas falhas causando indisponibilidade durante o período. 

(até 2 por ano) 

Quase nunca causa uma parada (1 por ano) 

 

 A matriz por si só não fornece o índice, apenas pontua os parâmetros que tem grande impacto no processo de assistência ao paciente em diferentes níveis de comprometimento. Para se determinar o.nível de criticidade de cada equipamento utilizamos um diagrama decisório montado com base nos dados da matriz de comprometimento, que nos conduz para três níveis, que são eles: 

A – Crítico                              B – Semi-critico                          C – Não crítico  

 DIAGRAMA DECISÓRIO

Diagrama decisorio

 

Como fica a aplicação do  Índice de Criticidade de cada tecnologia segundo o método descrito.

Segurança Confiabilid. Custo Disponibil. Frequencia Classe
Arco Cirúrgico 2 2 1 2 A
AutoClave 3 1 2 2 A
Bomba de Infusão 1 2 3 3 A
Bomba de Infusão de Seringa 1 2 3 3 A
Cardioversor 1 2 3 2 A
Desfibrilador 1 2 3 2 A
Lavadora Ultrasônica 3 1 3 2 A
Osmose Reversa 3 1 3 1 A
Processador de Vídeo 2 1 3 2 A
Processadora de Raio X 3 1 3 1 A
Raio-X 2 1 2 1 A
Raio-X – Móvel 2 1 2 2 A
Tomográfo 2 1 1 1 A
Unidade de Anestesia 1 1 2 2 A
Unidade de Hemodiálise 1 1 3 1 A
Unidade de Hemodinâmica 2 1 1 1 A
Unidade de Ultrassom 2 1 2 1 A
Ventilador Pulmonar 1 1 3 2 A
Câmara de resfriamento 3 3 3 1 B
Estufa para Cultura Bacteriológica 3 3 3 1 B
Foco Cirúrgico 3 2 3 1 1 B
Incubadora para teste biológico 3 3 3 1 B
Mesa Cirúrgica 2 2 3 1 1 B
Sistema de Tratamento de Efluentes 3 3 3 1 B
Unidade de Imagens 2 2 2 1 1 B
Video Printer 3 3 3 1 B
Aspirador Cirúrgico 3 2 3 3 C
Balança 3 3 3 3 3 C
Central de Comunicação 3 2 2 1 3 C
Compressor de membros 2 2 3 2 C
Fotóforo 3 2 3 3 C
Gravador de DVD 3 2 3 2 C
Maca de Transporte 2 2 3 3 C
Microscópio Cirúrgico 2 2 2 1 3 C
Monitor Multiparametros 2 2 3 3 C
Seladora 3 2 3 2 C

 

 

 

A ORGANIZAÇÃO DAS SANTAS CASAS DE MISERICORDIA

santa casa

Publicado em maio de 2016 na revista Hospitais Brasil

A história das Santas Casas sempre me fascinou, principalmente pela arquitetura antiga de algumas delas. Em algumas décadas de atividade que tenho exercido, tive oportunidade de frequentar diversas unidades da Santa Casa pelas cidades do Brasil. Nas minhas indas e vindas entre as paredes grossas seculares, corredores ladeados de colunas e estruturas portentosas, corria os prédios antigos com a cabeça nos desafios profissionais e os olhos na história aparente nos tijolos de cada ala que eu entrava.

Apesar da minha admiração, sempre tive também desconhecimento de particularidades quanto a administração e sustento das Irmandades, como muitos outros com os quais conversei a respeito. Confesso, ignorante que fui, que sempre pensei que as Irmandades estivessem de alguma forma ligada a Igreja católica em sua origem e financiamento. Depois de algumas gafes percebi que precisava pesquisar e me informar mais a respeito, e como toda jornada de conhecimento leva a descobertas incríveis, também tive as minhas sobre a História das Santas Casas no Brasil, e decidi dividir as poucas informações que consegui com os leitores deste meu blog.

As primeiras informações chamam a atenção, as Santas Casas somam mais de 2.100 hospitais, espalhados em todo o território nacional, responsáveis por quase cerca de 50% do número de leitos hospitalares existentes no país. São instituições particulares, laicas e filantrópicas, que em muitos municípios brasileiros garantem o serviço de saúde da população através de seus hospitais. Quando criada em Portugal foi a primeira legítima ONG do mundo, em um tempo em que seria impensável a existência de uma instituição social que se declarasse leiga e não governamental. Da época de sua fundação em Portugal até a metade do século XVIII, a Santa Casa foi dirigida por pessoas situadas nos altos escalões do governo e cresceu com ajuda de doações e pelo prestígio que a Santa Casa ganhava com o desenvolvimento econômico da colônia. Era uma instituição fechada, pois só faziam parte os representantes da elite local ou aqueles que tinham alcançado uma posição privilegiada na sociedade colonial

No Brasil o título de primeiro Hospital da Santa Casa divide a opinião de alguns historiadores entre São Paulo e Olinda, e eu decidi acompanhar os relatos do historiador Francisco Pereira da Costa reconhecendo na cidade de Olinda a primeira Irmandade da Santa Casa, construída em 1539 e seguida pela Santa Casa de Santos em 1543 ainda com o nome de Hospital de Todos os Santos, nome que depois deu origem a vila e a Cidade de Santos.

As dez primeiras instituições que foram criadas no Brasil são:

1539 – Santa Casa de Misericórdia de Olinda (PE)

1543 – Santa Casa da Misericórdia de Santos (SP)

1549 – Santa Casa de Misericórdia de Salvador (BA)

1582 – Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (RJ)

1551 – Santa Casa de Misericórdia de Vitória (ES)

1599 – Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (SP)

1602 – Santa Casa de Misericórdia de João Pessoa (PB)

1619 – Santa Casa de Misericórdia de Belém (PA)

1657 – Santa Casa de Misericórdia de São Luís (MA)

1792 – Santa Casa de Misericórdia de Campos (RJ)

 

Quando criadas no Brasil tinham como objetivo atender à população carente, cuidando dos enfermos em seus hospitais, alimentando os famintos, sepultando os mortos, educando os enjeitados em seus orfanatos e acolhendo os recém-nascidos abandonados na Roda dos Expostos. A fonte de renda vinha inicialmente das doações e esmolas. A partir do século XIX essas entraram em decadência e outras surgiram: festas filantrópicas, recursos de loterias, convênios e subvenções estatais. Ao mesmo tempo, as ações voltadas para a assistência médica foram crescendo em detrimento das demais atividades, ou seja, durante o Império, as Santas Casas acompanharam algumas mudanças da sociedade e o foco passou a ser o cuidado com os enfermos e amparo à infância desvalida. Foi uma resposta ao cenário epidemiológico criado pelas epidemias do século XIX, que resultou no aumento de órfãos, mendigos e doentes.

Infelizmente em julho de 2014 o fechamento do pronto socorro da Santa Casa de São Paulo revelou a situação dramática que esta e outras instituições de caridade enfrentam atualmente por conta de desmandos políticos, ingerência financeira, corrupção. Uma imagem do cenário caótico da administração da saúde brasileira. A história continua sendo escrita, mas desta vez sem a beleza arquitetônica ou o ideal da caridade.

A NOVA ORDEM NO MERCADO DE CALIBRAÇÃO DE EQUIPAMENTOS CLINICOS

 Publicado em abril de 2012 no site Saúde Business

A atividade de calibração dos equipamentos clínicos tem sido intensa nos últimos anos por conta das ações regulatórias e de entidades como a ONA, no intuito de melhorar a confiabilidade dos aparatos utilizados no diagnóstico e no tratamento de pacientes. A iniciativa privada, por sua vez, reagiu imediatamente e vem aumentando a oferta de serviços, competindo por espaço no mercado e os tomadores de serviço, ou seja, aqueles que deveriam impor as regras do mercado, não tem reagido na mesma velocidade. Por conta disso temos observado a queda na qualidade dos serviços de calibração pela falta de controle dos operadores.

INTRODUÇÃO

Quem observa o mercado da saúde, especificamente os serviços de engenharia pôde notar com bastante clareza que, desde meados de 2003 os preços médios dos serviços de calibração tem apresentado um movimento de queda acentuado a tal ponto de ficar difícil tanto para os tomadores de serviço como para os prestadores, de se estabelecer um referencial de preços. Em 2002 um certificado de calibração para um ventilador pulmonar (independente de marca) era oferecido em torno de 500,00 a 750,00, e eram poucas as empresas que se declaravam qualificadas para o serviço. Hoje, nove anos depois, é fácil encontrar empresas que cobram em torno de 80,00 ou até menos para os mesmos ventiladores, e dezenas de empresas que oferecem o serviço, ou seja, uma taxa de queda de 22% ao ano . Qual foi a causa e como o mercado tem reagido a esse reajuste negativo?

O QUE MOTIVOU A BAIXA?

Em uma realidade em que a inflação do setor de serviços nos últimos 5 anos tem estado na faixa de 5,8%[1] ao ano, por conta de um crescimento do PIB médio de 4,6%[2] no mesmo período, o que explica essa queda de preços contrariando a tendência do mercado de serviços? Sabemos que os preços praticados sempre refletem a capacidade de atendimento frente a demanda, e portanto, refletem o mercado.  E se o mercado tem demonstrado crescimento, porque os preços têm apresentado movimento contrario? Ou seja, o que percebemos não é simplesmente uma reação matemática ao movimento natural do mercado mas sim a presença de outro fator determinante mais forte que a busca das instituições por um serviço de qualidade. Para entender esse fenômeno temos que analisar o mercado, o que consiste basicamente em analisar os dois lados, o da demanda e o da oferta.

Durante a era Lula a economia brasileira teve um considerável crescimento, atingindo patamares de 6 %[3] ao ano nos seus melhores dias, frente aos 2,7% ainda no governo anterior, o que não quer dizer muita coisa porque se tratou também de um reflexo do crescimento mundial. Também houve um considerável aumento na carga tributária injetando 5,6 bi[4] a mais por ano no setor publico da saúde desde 2005, e assim tanto o setor privado quanto o setor público foram beneficiados com as políticas financeira e tributária dos últimos anos. Ponto positivo para a demanda.

Outro fator importante a considerar pelo lado da demanda foi o fortalecimento das políticas regulatórias e programas de gestão da qualidade. O surgimento da ANVISA em janeiro de 99 e a publicação das RDC’s foram um incentivo muito forte para as políticas da qualidade que já vinham se instalando (ONA, CQH, JCAHO, ISO 9000, etc) e trouxeram consigo o tema da calibração, que até então era uma novidade para as instituições de saúde e seus Engenheiros Clínicos. Estes tinham pouco conhecimento do tema naquela época.

Desta forma estava montado o cenário para o crefig 1scimento da demanda por serviços, pela injeção de dinheiro público e pelas novas exigências regulatórias e da qualidade. Mas então, se a demanda cresceu de forma tão acelerada e não haviam os prestadores de serviço para atendê-la, o que fez com que o preço do serviço não disparasse junto? Essa sim seria a reação natural. Obviamente, de olho no que estava acontecendo e, percebendo a oportunidade, um grande número de empresas se lançou (e ainda vem se lançando) no mercado oferecendo os serviços de calibração. Eram empresas que migraram dos serviços de manutenção, de engenharia clinica e até das representações comerciais para aproveitar um momento de abertura. Não eram tradicionalmente da área de metrologia, de forma que não tinham a estrutura adequada e nem profissionais especializados e, a calibração que estavam oferecendo, muito longe do tecnicamente ideal, estava sendo aceita pelo mercado. Na falta de qualificação a única forma de conquistar market share foi oferecendo menor preço, resultando numa curiosa reação contraria ao que parecia ser a tendência natural de valorização, e este sim foi o fator determinante pelo lado da oferta que levou ao barateamento do mercado de calibração.

Entendendo então o que aconteceu, o mercado respondeu a alta do consumo com aumento de oferta, e o tomador de serviços não foi seletivo na escolha do fornecedor, recusando os prestadores desqualificados. A falta da prática de qualificação de fornecedor, por despreparo ou mesmo por força econômica, permitiu o estabelecimento de serviços de baixa qualidade.

REFLEXOS NO MERCADO

Mas afinal, o que significa tudo isso então como atividade comercial? O ambiente competitivo com a conseqüente redução de preços permitiu que os hospitais pudessem implementar programas de calibração de forma mais ampla, ampliando os cuidados com os equipamentos com acompanhamento metrológico regular e criterioso. Algo impensável no inicio de 2000 para a maioria dos hospitais, que não encontravam respaldo legal para justificar a contratação deste tipo de serviço.

Da mesma forma que a guerra de preços entre operadoras de saúde popularizou o acesso a rede privada de Hospitais entre a classe média de uma forma geral, os hospitais foram beneficiados com essa nova realidade. Obviamente a guerra de preços, de uma forma ou de outra, é acompanhada por queda da qualidade, como tem acontecido nos dois casos, nas operadoras de saúde e nas empresas prestadoras de serviços de calibração, reforçando para os Engenheiros Clínicos a necessidade de se trabalhar com a qualificação de fornecedores, de se avaliar de forma critica os certificados e os resultados das calibrações e de incorporar em seu arcabouço de conhecimentos mais esta disciplina e todos os seus melindres.

O setor ainda está em crescimento. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) o Brasil foi considerado o segundo maior mercado de saúde privada do mundo, e recentemente fomos apontados como a 6ª economia no mundo de acordo com dados do Centro de Economia e Pesquisa de Negócios (CEBR), o que significa que “a coisa” ainda vai esquentar bastante. O que precisamos pensar é como regular esta atividade, melhorando a qualidade dos serviços de calibração e mantendo o mesmo patamar de preços, é importante que cada vez mais os gestores de Engenharia adotem esta pratica como parte da rotina, elevando o padrão de qualidade no cuidado com os equipamentos.

pib

COMO REGULAR

Se é fato que a regulamentação compulsória aplicada por agencias governamentais trariam, junto com os benefícios, efeitos colaterais indesejáveis (O que é obrigatório generaliza uma necessidade particular que nem sempre se aplica em todos os casos criando um problema ao invés de uma solução), então a melhor regulação aconteceria pelos tomadores de serviço que, neste caso, são os Engenheiros Clínicos, ou os gestores da tecnologia qualquer que seja sua formação ou nome de cargo, avaliando criticamente a qualidade do serviço prestado versus o preço e contratando mediante especificações e tolerâncias definidas nos processos clínicos, e desta forma rejeitando as empresas despreparadas ou mau intencionadas. Somente por meio da atuação consciente e preparada dos gestores poderá acontecer naturalmente o equilíbrio entre a oferta e a demanda sem interferências governamentais. Equilíbrio natural é o que  pregava o economista Adam Smith nas primeiras décadas de 1700.

A minha preocupação está na figura dos gestores. É da mão deles que este equilíbrio será encontrado. Será que temos Engenheiros Clínicos suficientemente preparados para conduzir uma seleção de prestadores de serviço em um mercado crescente e altamente competitivo sem que se perca o foco do que é necessário metrologicamente? Como anda a disciplina de metrologia nos cursos de Engenharia Clinica que tem se proliferado Brasil afora? Quanto vale este serviço para o Hospital? E para o Engenheiro Clinico?

Tenho observado nos hospitais pelo país como são jovens os profissionais que estão liderando as equipes de Engenharia. Os grandes hospitais, por exemplo, já tem alcançado a excelência na gestão de EC, e muitos estão bem preparados neste tema, mas eles representam apenas 2% dos estabelecimentos do país, enquanto nos restantes 98% eu tenho presenciado situações preocupantes de profissionais muito aquém do que seria tolerável na condução de um programa de calibração, contratando pelo menor preço absoluto (como se fossem instituições públicas) deixando de lado os valores representativos de empresas qualificadas, colocando por terra nossa discussão por uma regulação natural do mercado.

 inflação

CONCLUSÃO

O papel da calibração é tornar conhecido o erro inerente e conseqüentemente a incerteza da medição de um instrumento no momento de sua utilização para que seja levado em consideração no processo clinico do Hospital quando, por exemplo, da monitoração dos parâmetros fisiológicos, ou da manutenção da temperatura de incubadoras ou do volume de medicamento infundido durante tratamento, ou qualquer que seja o processo em que o erro associado ao mensurando tenha influencia direta na efetividade do tratamento/diagnóstico, e também que as devidas correções sejam adotadas segundo o resultado obtido, ou seja, a calibração não é uma atividade demandada pela Engenharia como alguns a consideram. Na verdade é uma atividade controlada pela Engenharia mas demandada pelo corpo clinico.

O Engenheiro Clinico por sua vez tem, no universo metrológico, a missão de promover a adequação dos resultados da calibração com as demandas do processo clinico de tratamento/diagnóstico, e no universo mercadológico avaliar criticamente os fornecedores contratados no que concerne a qualidade do serviço prestado, e o valor destes serviços.

A guerra de preços que tem tomado conta do mercado pelo excesso de liberdade na concorrência tem comprometido substancialmente a qualidade oferecida dos serviços e deve ser combatida. Como tomador de serviço, o Engenheiro Clinico representa hoje a grande força potencial na mudança deste cenário, por mais que ele desconheça essa realidade. Estamos vivendo o momento da convergência, encarando de frente a decisão entre estabelecer uma nova ordem no mercado ou seguir neste processo autodestrutivo. Qual será a opção que vamos escolher?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1  “The 2011 Report on Calibration Services: World Market Segmentation by City “ – Professor Philip M. Parker, PhD

2 – “Global Calibration Services Market“, June 2012 – Robert Liley

3 – “Estudo da oferta e demanda por serviços laboratoriais de ensaios e  calibração – ODSLEC”,  INMETRO – 2009

[1] Fonte: IBGE, Ipea
[2] Fonte: Banco Central
[3] Fonte: Banco Central, IBGE
[4] Fonte: IBGE e Ministério da Fazenda